Doce Veneno - Capítulo 14

18 outubro 2016



 E agora, o que eu vou fazer?
Se os seus lábios ainda estão molhando os lábios meus?
E as lágrimas não secaram com o sol que fez?
E agora como posso te esquecer?
Se o teu cheiro ainda está no travesseiro?
E o teu cabelo está enrolado no meu peito...
 
Maysa sentiu o peso nos olhos ao tentar abri-los. Era difícil manter o foco em alguma coisa quando tudo em volta parecia branco e opaco. Aos poucos ela ia recuperando as sensações. Sentiu que estava deitada, sentiu as pernas, os braços, a cabeça... Conseguiu finalmente fixar os olhos no próprio corpo. Viu os hematomas que escureciam as poucas partes do corpo que ficavam a vista debaixo do lençol branco. Viu que a perna direita estava engessada por cima do lençol. Depois começou a olhar em volta.
Viu então seu pai sentado numa poltrona reclinável. Com a barba por fazer ele parecia mais velho do que realmente era. Fazia tanto tempo que não o via assim de perto. Os cabelos brancos estavam mais presentes e, apesar de uma leve barriga se formar, percebia que o rosto estava mais magro. As profundas olheiras davam ideia de que ele não estava dormindo bem há algum tempo.
- Pai - conseguiu finalmente dizer
- Oi, filha. Que bom que você acordou - respondeu com sua voz grave, mas carinhosa
- O que houve?
- Bem, pelo que eu fui informado, você foi jogada da escada por uma colega de faculdade - sua voz ficou mais tensa e, ela percebeu que seu rosto ficou mais tenso que antes
- Acho que eu me lembro... Há quanto tempo eu estou aqui?
- Desde sua entrada no hospital até hoje... um mês
- QUÊ?
- Brincadeira, filha. Na verdade tem uma semana. Você chegou aqui desacordada. Ligaram para o Caetano e me ligou. Eu pensei que não fosse tão grave. Mas além de quebrar a perna, você teve uma pancada muito feia na cabeça. Então eu acabei tendo de vir. Ficamos muito preocupados, porque você só abria os olhos e fechava. Os médicos não falavam que fosse algo perigoso, mas eu senti um medo muito grande quando te vi naquele estado. Foram feitos vários exames pra tentar detectar alguma coisa. Ao mesmo tempo que não dava nada, você não acordava.
- Pai, ela acordou? - Caetano entrou devagar no quarto e se espantou ao ver o pai conversando com a irmã - Maysa? Ai que bom que você acordou. Nossa! - e aproximou dela para lhe dar um beijo na testa.
- Oi Caê.
- Meu Deus, Maysa, o que foi isso?
- Acho que você tá perguntando pra pessoa errada. Eu só fui arremessada escada a baixo, mas a quem a gente deve todo o crédito é a Nathalie
- Como é que você vai na casa de uma pessoa buscar briga? Não que eu concorde com o que ela fez, de forma alguma. Mas você também estava errada.
- Vai defender a psicopata loira agora, é isso?
- Filha, não se exalte. E Caetano, deixa sua irmã em paz. Não quero saber de discussão entre vocês dois, me entenderam?
- Então avise pro seu primogênito que não venha me dar sermões
- Tudo bem.
Maysa teve que ficar mais dois dias no hospital para poder se recuperar e ir pra casa. Como não estava conseguindo se manter acordada, teve que se alimentar de soro todos esses dias. Então precisava se fortalecer, voltar a comer pouco a pouco para, então, ter alta.
- Já tô cansada disso aqui. Que dia eu posso ir embora, doutor?
- Maysa, você tem que ser paciente. Porque você ainda está um pouco debilitada. Mas no máximo dois ou três dias eu devo te liberar.
- Tudo isso?
- Tudo isso. Aproveite pra se recuperar o máximo que conseguir, mantenha repouso e nada de se exaltar.
No mesmo dia, ela recebeu visita de Julia, Fernanda e Rebeca.
- Nossa, amiga, que loucura foi essa? - perguntou Rebeca, com os olhos arregalados
- Pra você ver quanto eu sou amada por essa garota.
- Isa, você não fez certo de ter ido lá e agredido a menina, mas isso não deu direito dela fazer o que fez com você. Que menina louca! - acrescentou Nanda
- A cena foi lamentável. Principalmente quando ela se vingou te empurrando na escada. Cês não têm ideia do que eu passei quando vi a Maysa despencando lá de cima e, quando eu fui tentar socorrer ela estava desmaiada. Nossa, gente! Foi horrível te ver daquele jeito, amiga. Eu não sabia se eu chorava, se gritava com a Nathalie, se pedia socorro. A sorte é que a mãe teve reação e ligou rápido pra emergência. Eu vim na ambulância contigo e sua pele estava muito pálida. Pensei que você fosse morrer... - a voz de Júlia saia fraca e uma lágrima brotou dos seus olhos azuis
- Credo, Julia, vira essa boca pra lá! - retrucou Rebeca
- O  importante é que você está se recuperando, amiga. É muito bom te ver! - disse Fernanda
- Obrigada meninas. E principalmente, obrigada Ju. Eu sei que você deve ter sofrido bastante comigo. Não queria que você tivesse passado por um momento tão sofrido, mas te agradeço do fundo do meu coração pelo seu carinho e sua amizade. E pelo carinho e amizade de todas vocês.
Mais tarde, quando as amigas já tinham ido embora, Maysa recebeu outra visita.
- Oi, posso entrar?
- Oi Cadu, pode sim.
Ela percebeu que o quanto que ele estava tenso. Na verdade, parecia aterrorizado ao vê-la.
- Eu vim aqui outras vezes, mas cê estava dormindo.
- Quantas vezes?
- Err...
- Fala, por favor
- Todos os dias, desde que você está aqui. - Ele se aproximou da cama com um buquê de flores e uma caixa de bombons - Achei que você ia gostar - disse, deixando os presentes na mesa ao lado da cama. Seus olhos percorreram rapidamente o corpo de Maysa e ela percebeu que ele tentava analisar se ela estava mesmo bem.
- Eu tô bem, Cadu
- Fiquei tão preocupado com você... Eu não ia me perdoar se algo te acontecesse.
- Olha, eu tô bem aqui. Não precisa ficar assim, por favor.
- Maysa, cê tem ideia do medo que eu tive de te perder? Do pavor que eu senti ao saber que você tava desacordada? E, pior que isso, de saber que tudo isso foi por minha culpa?
- Sua culpa?
- Sim, minha culpa. Se eu não tivesse dito tudo aquilo. Se eu não tivesse pedido um tempo. Se eu tivesse sido mais sincero contigo. Se eu tivesse expulsado aquela garota do meu quarto antes mesmo dela entrar. Se eu tivesse voltado contigo do Rio assim...
- Cadu, olha, por favor, para de se culpar.
- Não, Maysa, eu...
- Olha, eu que escolhi ir atrás da Nathalie e eu que bati nela primeiro. Claro, ela foi covarde ao ter me jogado da escada, porque eu já tava de costas, mas, de certa forma, eu busquei isso. Independente do que você fez ou deixou de fazer.
- Mas eu...
- Mas nada. Deixa eu te ver direito, por favor...
Ele se aproximou do seu rosto e ela viu que ele também estava com olheiras profundas e o rosto mais magro que o normal.
- Me desculpa por ser tão inconsequente. Me desculpa por ser tão nervosa e explosiva a ponto de te afastar de mim.
- Maysa, eu...
- Cala a boca, deixa eu falar. Opa. Acho que é efeito de eu ter ficado uma semana dormindo. Mas a verdade, Cadu,é que eu descobri que você é mais que um cara gato, gostoso e rico. Eu sempre te vi como alguém com quem eu nunca teria nada além de uma amizade colorida. E você me mostrou que você é muito mais que um corpo bonito. Você acreditou em mim, me apoiou, me deu carinho e respeito. Muito mais que eu merecia, inclusive. Mas nunca desistiu de mim. E eu nunca pensei que eu ia dizer isso pra você, mas eu descobri que eu te amo. De uma forma completamente nova de todas as outras. E que se você quiser terminar comigo, eu vou sofrer muito, mas eu vou aceitar. Eu sei que...
- Agora quem diz cala a boca sou eu - e encostou com toda a delicadeza seus lábios sobre os dela - Eu te amo, Maysa. Desde sempre. Mas ainda mais agora por saber que você sente o mesmo por mim. - e beijou-lhe, novamente, com toda a ternura.

Espero que o tempo passe
Espero que a semana acabe
Pra que eu possa te ver de novo
Espero que o tempo voe
Para que você retorne
Pra que eu possa te abraçar
E te beijar de novo

Ela!

19 setembro 2016


Ela é intensa demais. Pra ela, essa gente que não sabe o que quer é uma pedra grande no caminho.

Ela se entrega a cada momento como se aquele, fosse o último da sua vida. Ela espera o grande amor da vida enquanto vive.

Ela tem no olhar o brilho de quem sabe viver, ela tem nos lábios o sorriso de quem vive feliz com o que tem. Ela é aquele tipo que faz você se apaixonar pela vida e vez ou outra, por ela também. Ela é uma dose de loucura pra sua sanidade. Ela é brisa leve e ventania, cada uma num momento.

Ela é grito quando o silêncio está ensurdecedor e ela é silêncio quando os gritos já não dizem mais nada.

Ela é sinceridade. Ela fala de coisas sérias com a leveza de quem se preocupa com tudo mas não teme nada. Ela é mistério, ela sorri como se nunca ninguém fosse desvendá-la. Ela é uma música calma num dia caótico. Ela é um sambinha daqueles gostoso de se ouvir. Ela é música, ela é melodia.

Ela é um poema em forma de mulher.

Ela é porto seguro. Ela é mar agitado e é calmaria. Ela é uma mulher de mil faces. Ela é dona de si. Ela é a senhora do tempo, sabe exatamente o momento certo de parar e ir embora.

Ela é o segredo mais bonito que você pode guardar.

Ela é pôr do sol. Ela é lua cheia, daquelas que a gente passa horas admirando no céu. Ela é leveza. Ela é aquele tipo que você não entende. Ela é bagunça.

Ela é louca, como muitos dizem por aí. Louca pela vida, por sorrisos e pelas voltas que o mundo dá.

Ela é aquele tipo de mulher que você não tem coragem de ter, mas que deseja como nunca desejou ninguém. Ela é uma batalha diária e veja bem, se você tiver disposto a lutar, ela é do tipo que faz você querer ficar ali, pra sempre.

O que restou do fim

31 agosto 2016




Restou aqui de mim um emaranhado de dúvidas, o que será que aconteceu pra acontecer isso entre nós? Restou um desgosto daqueles de fazer a gente perder o rumo da vida, sabe? Restou uma frustração gigante de saber que por um período de tempo realmente significante eu me dediquei de corpo e alma por alguém que estava se dedicando somente com a pontinha do dedinho do pé.

Veja bem, eu não estou dizendo que foi ruim, não foi, longe disso, foi bom, e como foi. Mas hoje, olhando de fora percebo que poderia ter sido muito mais do que apenas um amorzinho daqueles que passam mais rápidos do que o metrô que faz a linha azul. 

O que restou do fim foram as lembranças boas e todas as partes ruins. Oras, não adianta me pedir pra vir aqui e falar somente da parte boa, quando na verdade, as ruins são que deixam as cicatrizes mais feias e mais profundas, não é mesmo? 

Restou do fim aquele momento que você me olhou e disse que não dava mais, que já não éramos mais “nós”. Restou o olhar que você me deu ao ir embora sabendo que nunca mais iria voltar para me buscar pra jantar.

Restou a dúvida de “será que um dia eu vou amar alguém de novo?”. Restou o medo de passar o resto da vida lembrando de você e sentindo uma dor no estômago maior do que eu poderia suportar.

Depois do fim restaram algumas lágrimas que eu não sei como ainda conseguiam cair, bem que disseram que 70% do nosso corpo é água, haja lágrima pra um ser só! Depois do fim me peguei pensando como seria pra começar de novo, sabe? Como seria sair sozinha, como seria ir no cinema e não ter você ali do lado.

O que restou do fim, depois de todo esse tempo foi a certeza de que você já não vai voltar, mas que, independente disso, eu já sei viver sozinha. Depois do fim restou a minha vontade de seguir em frente, de correr atrás dos meus sonhos, de amar mais, mas principalmente de me amar mais.

Depois do fim percebi que vem os novos começos e que por mais que algumas feridas sejam profundas e doloridas, elas vão cicatrizar. Percebi que por mais que as lembranças boas passem, as ruins também se vão. Depois do fim descobri que quando você entende que tudo nesse vida é como realmente tem que ser, a gente sofre menos.

O que restou do fim em mim, é a certeza de que a vida segue, mesmo quando a gente ainda não sabe qual direção seguir.

Doce Veneno, Capítulo 13

27 agosto 2016

Parece uma rosa. De longe é formosa
É toda recalcada. A alegria alheia incomoda
Venenosa! Êh êh êh êh êh!
Erva venenosa... Êh êh êh êh êh!
É pior do que cobra cascavel
O seu veneno é cruel

- Maysa, cê tem certeza que quer fazer isso? - Júlia estava com as mãos no volante, em dúvida se deixava a amiga sair ou não do carro - Olha, eu vou fazer o seguinte. Eu vou contigo.
- Vai coisa nenhuma!
- Amiga, eu te conheço há tempo o suficiente pra saber que eu preciso ir contigo.
- Júlia eu não quero que você vá.
- Tô nem aí.
- Eu vou ficar de mal contigo.
- É o preço.
Júlia tirou o cinto de segurança e saiu do carro. - Você não vem?
Maysa saiu do carro com raiva e bateu a porta com toda força, mas a amiga fingiu que nada acontecera. Julia travou o carro e seguiu na frente.
- Boa tarde. Eu gostaria de falar com a Nathalie, moradora do décimo andar.
- Quem deseja? - perguntou uma voz rouca no interfone
- Julia, da faculdade.
- Aguarde um momento, por favor.
Depois de alguns minutos o portão se abriu e as duas seguiram para o hall do prédio de Nathalie.
- Jú, daqui eu sigo sozinha.
- Não mesmo, Maysa. Eu vou com você.
Ela revirou os olhos e entraram no elevador.
Quando chegaram, Maysa saiu com brutalidade do elevador e tocou a campainha.
- Boa tarde. A Nathalie disse que era pra vocês subirem.
O apartamento de Nathalie era um duplex absurdamente grande. Mas não necessariamente de bom gosto, pelo menos no que diz respeito à decoração. Numa sala ampla, que parecia ser a sala de televisão, a parede principal era vermelho escarlate, com um lustre imenso no centro do ambiente com detalhes coloridos nos pequenos cristais, lembrando mais uma boate. O sofá de couro era rosa choque e sobre ele ficavam várias almofadas em tons dos mais diversos. A TV era de uma imensidão absurda que só perdia para a cristaleira que ficava ao lado. No chão se estendia um tapete felpudo creme, aparentemente a coisa mais simples no que diz respeito ao excesso de cores daquele lugar.
Júlia apressou para que Maysa parasse de olhar para a sala e subisse os degraus antes que a amiga disparasse a falar do gosto duvidoso de quem decorou a sala.
Mas ficava um pouco difícil, já que ao subir as escadas, quadros imensos de Romero Britto e outros artistas que optavam pelo colorido estampavam as paredes.
- Meu Deus... - exclamou Maysa
- Se controle, Isa - respondeu Ju, tentando conter o riso.
Ao chegar nos ultimos degraus, conseguia-se visualizar o quarto de Nathalie. Nada que fosse muito diferente do que elas já tinham visto: uma cama king size povoada por imensos travesseiros de pena de ganso, ao lado de uma poltrona de couro cor de rosa choque. A parede principal também era rosa, cor que parecia permear o quarto como um todo.
- Olá Júlia. Sabia que você estava acompanhada, mas não imaginava que fosse você, Maysa. - disse Nathalie saindo do quarto, envolvida num roupão de seda rosa com plumas nas pontas das mangas e na barra.
- Bem, eu nunca teria que ter vindo aqui se eu não fosse realmente importante. - respondeu Maysa, se aproximando da rival - Sabe, Nathalie, eu fiquei sabendo que você deu em cima do meu namorado.
- O Eduardo? Na verdade, eu nem via muita graça nele.
- Não se faça de sonsa
- Ah, tá. Você tá falando do seu cachorrinho de estimação. Qual o nome dele mesmo? Cadu!
- Se eu fosse você eu media melhor as palavras para falar dele...
- Sim, querida, ele é o seu cachorrinho de estimação, ou pelo menos é assim que você o trata.
- Então você não passa de uma cadela no cio, não é mesmo, querida? - Maysa foi se aproximando de Nathalie, ficando a poucos centímetros da loira, que já não mantinha uma postura tão altiva quanto no início. - Olha aqui, quando eu namorava o Eduardo, era ele o seu alvo. Agora que eu estou namorando o Cadu, é atrás dele que você vai. Tô percebendo que seu problema não é com eles, mas sim comigo. Então eu vim aqui te perguntar, afinal de contas, qual é a tua, garota?
Nathalie ficou estática naquele momento.
Julia percebeu que as mãos dela tremiam e que Maysa mantinha os punhos cerrados, tamanha era a raiva que sentia.
- Você se acha o centro do universo, não é? - disse Nathalie, com a voz um pouco vacilante. - Eu gosto de homem! E uma coisa eu posso lhe dizer, você até que tem bom gosto nesse aspecto
- Bom gosto vai ser a minha mão na sua cara, sua piranha!
Maysa foi com tudo pra cima de Nathalie e se não fosse por Julia, as duas teriam rolado no chão.
- Isa, para!
- Julia me solta!
- Deixa ela vir, Julia. Deixa ela tentar fazer alguma coisa. Ela não é de nada mesmo. Nem namorado consegue manter quando eu tô por perto.
Nisso Maysa conseguiu romper a barreira feita pela amiga e num forte puxão de cabelo, jogou Nathalie de joelho. Com a outra mão, desvio-lhe vários tapas, que saíram com tanta força que, de pequenos cortes, via-se sangue brotando da pele extremamente branca de Nathalie.
- Minha filha! Solta ela, sua selvagem! - a mãe de Nathalie apareceu, intercedendo pela filha.
- É toda sua! - Maysa disse se erguendo e limpando as mãos - Isso é pra ela aprender que não se deve mexer com homem comprometido. Isso a senhora, com certeza, não deve ter ensinado muito bem a sua filhinha, o que é uma pena. - com um sorriso irônico, Maysa se virou para descer as escadas. Foi quando Nathalie, num súbito momento de raiva, levantou-se rapidamente e empurrou com força a rival, que saiu rolando escada a baixo.

De longe não é feia
Tem voz de uma sereia
Cuidado, não a toque
Ela é má, pode até te dar um choque

Além dos joguinhos

26 agosto 2016


Olha cara, hoje eu vim aqui escrever pra você. Hoje eu vim te dizer que não adianta fazer joguinhos, não adianta ignorar, não adianta demorar para responder. Eu não sou o tipo de pessoa que se incomoda com esse tipo de coisa, na verdade, isso tudo até me afasta. Não nasci na geração certa, não tenho paciência para esse eterno mimimi.

Na minha opinião, meu caro, se tu quer, tem que demonstrar, não adianta querer e ficar calado fingindo que não se importa e bom, não me venha com aquele papo de "vamos marcar algo qualquer dia desses" que pra mim, não funciona.

Se você quer, marca, manda mensagem, carta, sinal de fumaça, mas não me deixa sumir. Não me deixa cair na sombra dessa multidão que não sabe o que quer, não deixa passar a chance de viver algo que vai além de uma ou duas mensagens durante o dia só pra manter me manter no banco de reservas enquanto as titulares te jogam para escanteio.

Não quero mais saber de mergulhar fundo em gente rasa, quero nadar em piscinas olímpicas, quero mergulhar e não conseguir encostar o pé no chão de tão profundo que é o relacionamento que estou vivendo. Quero alguém que me ligue as três horas da manhã e diga que tá louco pra me ver. 

Quero sair desses joguinhos e entrar com a cara e a coragem em um relacionamento onde não haja energia poupada. Quero acordar e ter um bilhete na minha cama dizendo que passou pra me ver mas não teve coragem de me acordar do sono, mas que mais tarde vai me encontrar. 

Eu quero noites em claro falando besteira, quero flores em datas especiais e em dias comuns, quero mandar uma mensagem enquanto você trabalha só pra você saber que fico pensando em você o dia todo. Eu quero poder me dedicar a alguém que não precisa de joguinhos pra viver.

Alguém que não vai cansar de correr atrás depois de uma briga boba, alguém que depois de um dia exaustivo de trabalho vai me ligar pra me chamar pra ir jantar num japa porque sabe que eu adoro. Alguém que na minha tpm saiba que eu preciso de chocolate e de carinho.

Quero alguém que vá além do "qualquer dia a gente marca alguma coisa", quero uma pessoa que aparece aqui na porta de casa e pergunte "vamos jantar?". Quero atitude, quero sentir de novo a magia de ter alguém que cuida, alguém que deseja, alguém que não espera para me responder.

Em um mundo onde a maioria das pessoas vive se fazendo de difícil achando que isso irá torna-las melhor escolha, quero alguém que se entregue rápido, com facilidade, sem medo da felicidade.

Doce Veneno, Capítulo 12

02 agosto 2016


Quando eu te vi andava tão desprevenido
Que nem ouvi tocar o alarme de perigo
E você foi me conquistando devagar
Quando notei já não tinha como recuar
 
- Isa, quero fazer as coisas de uma forma mais tranquila. Esse é o Flávio, meu companheiro
- Prazer, novamente, Flávio.
- Oi, Maysa. - ele trocaram um forte aperto de mãos com os olhos emocionados.
Caetano convidou a irmã e o namorado para se conhecerem melhor. Arrumou a mesa com pães, biscoitos e um delicioso bolo de chocolate. Era uma tentativa de reconciliar os dois.
Maysa começava a aceitar o namoro do irmão, ainda mais ao conhecer melhor Flávio.
...
- Cadu, faz tempo isso, mas você chegou a encontrar com a Nathalie durante o congresso?
- Que congresso?
- Aquele do Rio
- Ah, amor, já faz tanto tempo isso.
- Ou você fala ou vou começar a pensar que você está me escondendo alguma coisa.
À medida que Maysa ia falando Cadu ia se encolhendo, desviando o olhar.
- Começou...
- Você vai falar ou vou ter que perguntar pra aquela biscate?
- Ah, Maysa, que coisa chata!
- O que é chato? Você estar me escondendo algo ou eu não ser burra o suficiente pra ficar de trouxa?
- Para com isso, vai!
- Não vou parar até você abrir o jogo!
- Senta aqui. Eu achei que não fosse algo que deveria te contar, porque não queria te chatear. Você já tava mal por conta do seu irmão e eu simplesmente achei que não valia a pena falar.
- O que houve?
- Seguinte. Você lembra que foi a Nathalie que me falou desse congresso, certo?
- Sim, e...?
- Pois bem. Eu não dei muita trela, até porque você ia comigo. Eu não tenho nada a ver com ela a não ser interesses relacionados ao curso. Eu evitei encontrar com ela desde o início, mesmo quando você tava lá porque eu sei da sua rixa com ela.
- Hum...
- Só que ela descobriu onde eu tava e se mudou pro mesmo andar no hotel que a gente se hospedou. No começo eu achei que era coincidência, mas comecei a achar estranho o fato de encontrar com ela em todos os horários que eu descia. Até o dia em que ela me ligou no apartamento. Eu tava cansado, já tinha bebido um pouco e não consegui recusar o pedido dela de vir no meu quarto. Ela falou que queria falar sobre a palestra do dia seguinte. Eu tentei recusar, mas ela foi muito insistente. Enfim.
- Estou escutando.
- Bom... Ela veio no meu quarto, vestida de lingerie. Eu percebi que o intuito era outro e pedi que ela fosse embora. Ela insistiu e empurrou a porta do quarto. Eu tava meio bambo e não tive força para impedir sua entrada. Ela deitou na minha cama, mas eu pedi pra ela sair. Tive que puxá-la pelos braços, mas ela conseguiu me dar um beijo, um selinho, na verdade. Daí eu me irritei e empurrei ela.
Maysa começou a enrubescer desde o início da conversa, mas agora estava vermelha feito um camarão. Quando ouviu as ultimas palavras suas mãos tremiam.
- ELA O QUÊ?
Foi então que o ódio tomou conta de Maysa. Ela se levantou num rompante e começou a arremessar tudo o que via pela frente na parede.
- DESGRAÇADA! LADRA DE NAMORADO!
- Calma, Maysa! Pelo amor de Deus!
Cadu agarrou Maysa por trás, segurando os braços para que ela não quebrasse mais nada.
- Por favor, calma. Olha pra mim - girou seu corpo para que ficassem frente a frente - Isso não significou nada pra mim, acredita. Eu achei tão insignificante que não vi razão de te contar. Até porque eu sabia que você não ia reagir bem.
- Me solta! Me solta!
- Soltei. Agora me escuta. Aquilo não significou nada pra mim, e eu não quero que signifique pra você também. Porque eu te amo.
- Cadu, me dá um tempo!
- Que?
- Eu preciso pensar.
- Você tá me pedindo um tempo? É isso mesmo que eu tô ouvindo?
- É, é isso mesmo! Você me escondeu uma situação muito grave, Cadu. Eu nem sei se posso mais confiar em você.
- Como é? A maluca se atirou em mim, se enfiou no meu quarto, me beijou a força e eu vou ter que pagar pelas besteiras que ela fez? Ah, Maysa, você realmente não sabe o que tá dizendo. Mas quer saber? Que seja feita a vossa vontade! Não é assim sempre? Aproveite bem esse tempo.
Cadu saiu pisando fundo e deixou Maysa falando sozinha.
Por um lado ele estava errado, afinal de contas, bem ou mal, ele tinha que ter contado o que acontecera no Rio. Mas Maysa tinha exagerado. Cadu sempre fez de tudo por ela e para ela, e por conta de uma situação da qual ele nem sequer teve culpa, ela, mais uma vez, tripudiou dele.
O problema é que pela primeira vez Cadu não quis ceder à vontade dela.
Pela primeira vez ele sentiu o orgulho ferido.
Eram dois bicudos.
E todo mundo sabe que dois bicudos não se beijam.
... Não sei se eu traí primeiro ou fui traído
Não te pedi uma conduta exemplar
Mas é que a sua ausência é o que me dói no calcanhar...
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