Doce Veneno, Capítulo 13

27 agosto 2016

Parece uma rosa. De longe é formosa
É toda recalcada. A alegria alheia incomoda
Venenosa! Êh êh êh êh êh!
Erva venenosa... Êh êh êh êh êh!
É pior do que cobra cascavel
O seu veneno é cruel

- Maysa, cê tem certeza que quer fazer isso? - Júlia estava com as mãos no volante, em dúvida se deixava a amiga sair ou não do carro - Olha, eu vou fazer o seguinte. Eu vou contigo.
- Vai coisa nenhuma!
- Amiga, eu te conheço há tempo o suficiente pra saber que eu preciso ir contigo.
- Júlia eu não quero que você vá.
- Tô nem aí.
- Eu vou ficar de mal contigo.
- É o preço.
Júlia tirou o cinto de segurança e saiu do carro. - Você não vem?
Maysa saiu do carro com raiva e bateu a porta com toda força, mas a amiga fingiu que nada acontecera. Julia travou o carro e seguiu na frente.
- Boa tarde. Eu gostaria de falar com a Nathalie, moradora do décimo andar.
- Quem deseja? - perguntou uma voz rouca no interfone
- Julia, da faculdade.
- Aguarde um momento, por favor.
Depois de alguns minutos o portão se abriu e as duas seguiram para o hall do prédio de Nathalie.
- Jú, daqui eu sigo sozinha.
- Não mesmo, Maysa. Eu vou com você.
Ela revirou os olhos e entraram no elevador.
Quando chegaram, Maysa saiu com brutalidade do elevador e tocou a campainha.
- Boa tarde. A Nathalie disse que era pra vocês subirem.
O apartamento de Nathalie era um duplex absurdamente grande. Mas não necessariamente de bom gosto, pelo menos no que diz respeito à decoração. Numa sala ampla, que parecia ser a sala de televisão, a parede principal era vermelho escarlate, com um lustre imenso no centro do ambiente com detalhes coloridos nos pequenos cristais, lembrando mais uma boate. O sofá de couro era rosa choque e sobre ele ficavam várias almofadas em tons dos mais diversos. A TV era de uma imensidão absurda que só perdia para a cristaleira que ficava ao lado. No chão se estendia um tapete felpudo creme, aparentemente a coisa mais simples no que diz respeito ao excesso de cores daquele lugar.
Júlia apressou para que Maysa parasse de olhar para a sala e subisse os degraus antes que a amiga disparasse a falar do gosto duvidoso de quem decorou a sala.
Mas ficava um pouco difícil, já que ao subir as escadas, quadros imensos de Romero Britto e outros artistas que optavam pelo colorido estampavam as paredes.
- Meu Deus... - exclamou Maysa
- Se controle, Isa - respondeu Ju, tentando conter o riso.
Ao chegar nos ultimos degraus, conseguia-se visualizar o quarto de Nathalie. Nada que fosse muito diferente do que elas já tinham visto: uma cama king size povoada por imensos travesseiros de pena de ganso, ao lado de uma poltrona de couro cor de rosa choque. A parede principal também era rosa, cor que parecia permear o quarto como um todo.
- Olá Júlia. Sabia que você estava acompanhada, mas não imaginava que fosse você, Maysa. - disse Nathalie saindo do quarto, envolvida num roupão de seda rosa com plumas nas pontas das mangas e na barra.
- Bem, eu nunca teria que ter vindo aqui se eu não fosse realmente importante. - respondeu Maysa, se aproximando da rival - Sabe, Nathalie, eu fiquei sabendo que você deu em cima do meu namorado.
- O Eduardo? Na verdade, eu nem via muita graça nele.
- Não se faça de sonsa
- Ah, tá. Você tá falando do seu cachorrinho de estimação. Qual o nome dele mesmo? Cadu!
- Se eu fosse você eu media melhor as palavras para falar dele...
- Sim, querida, ele é o seu cachorrinho de estimação, ou pelo menos é assim que você o trata.
- Então você não passa de uma cadela no cio, não é mesmo, querida? - Maysa foi se aproximando de Nathalie, ficando a poucos centímetros da loira, que já não mantinha uma postura tão altiva quanto no início. - Olha aqui, quando eu namorava o Eduardo, era ele o seu alvo. Agora que eu estou namorando o Cadu, é atrás dele que você vai. Tô percebendo que seu problema não é com eles, mas sim comigo. Então eu vim aqui te perguntar, afinal de contas, qual é a tua, garota?
Nathalie ficou estática naquele momento.
Julia percebeu que as mãos dela tremiam e que Maysa mantinha os punhos cerrados, tamanha era a raiva que sentia.
- Você se acha o centro do universo, não é? - disse Nathalie, com a voz um pouco vacilante. - Eu gosto de homem! E uma coisa eu posso lhe dizer, você até que tem bom gosto nesse aspecto
- Bom gosto vai ser a minha mão na sua cara, sua piranha!
Maysa foi com tudo pra cima de Nathalie e se não fosse por Julia, as duas teriam rolado no chão.
- Isa, para!
- Julia me solta!
- Deixa ela vir, Julia. Deixa ela tentar fazer alguma coisa. Ela não é de nada mesmo. Nem namorado consegue manter quando eu tô por perto.
Nisso Maysa conseguiu romper a barreira feita pela amiga e num forte puxão de cabelo, jogou Nathalie de joelho. Com a outra mão, desvio-lhe vários tapas, que saíram com tanta força que, de pequenos cortes, via-se sangue brotando da pele extremamente branca de Nathalie.
- Minha filha! Solta ela, sua selvagem! - a mãe de Nathalie apareceu, intercedendo pela filha.
- É toda sua! - Maysa disse se erguendo e limpando as mãos - Isso é pra ela aprender que não se deve mexer com homem comprometido. Isso a senhora, com certeza, não deve ter ensinado muito bem a sua filhinha, o que é uma pena. - com um sorriso irônico, Maysa se virou para descer as escadas. Foi quando Nathalie, num súbito momento de raiva, levantou-se rapidamente e empurrou com força a rival, que saiu rolando escada a baixo.

De longe não é feia
Tem voz de uma sereia
Cuidado, não a toque
Ela é má, pode até te dar um choque

Além dos joguinhos

26 agosto 2016


Olha cara, hoje eu vim aqui escrever pra você. Hoje eu vim te dizer que não adianta fazer joguinhos, não adianta ignorar, não adianta demorar para responder. Eu não sou o tipo de pessoa que se incomoda com esse tipo de coisa, na verdade, isso tudo até me afasta. Não nasci na geração certa, não tenho paciência para esse eterno mimimi.

Na minha opinião, meu caro, se tu quer, tem que demonstrar, não adianta querer e ficar calado fingindo que não se importa e bom, não me venha com aquele papo de "vamos marcar algo qualquer dia desses" que pra mim, não funciona.

Se você quer, marca, manda mensagem, carta, sinal de fumaça, mas não me deixa sumir. Não me deixa cair na sombra dessa multidão que não sabe o que quer, não deixa passar a chance de viver algo que vai além de uma ou duas mensagens durante o dia só pra manter me manter no banco de reservas enquanto as titulares te jogam para escanteio.

Não quero mais saber de mergulhar fundo em gente rasa, quero nadar em piscinas olímpicas, quero mergulhar e não conseguir encostar o pé no chão de tão profundo que é o relacionamento que estou vivendo. Quero alguém que me ligue as três horas da manhã e diga que tá louco pra me ver. 

Quero sair desses joguinhos e entrar com a cara e a coragem em um relacionamento onde não haja energia poupada. Quero acordar e ter um bilhete na minha cama dizendo que passou pra me ver mas não teve coragem de me acordar do sono, mas que mais tarde vai me encontrar. 

Eu quero noites em claro falando besteira, quero flores em datas especiais e em dias comuns, quero mandar uma mensagem enquanto você trabalha só pra você saber que fico pensando em você o dia todo. Eu quero poder me dedicar a alguém que não precisa de joguinhos pra viver.

Alguém que não vai cansar de correr atrás depois de uma briga boba, alguém que depois de um dia exaustivo de trabalho vai me ligar pra me chamar pra ir jantar num japa porque sabe que eu adoro. Alguém que na minha tpm saiba que eu preciso de chocolate e de carinho.

Quero alguém que vá além do "qualquer dia a gente marca alguma coisa", quero uma pessoa que aparece aqui na porta de casa e pergunte "vamos jantar?". Quero atitude, quero sentir de novo a magia de ter alguém que cuida, alguém que deseja, alguém que não espera para me responder.

Em um mundo onde a maioria das pessoas vive se fazendo de difícil achando que isso irá torna-las melhor escolha, quero alguém que se entregue rápido, com facilidade, sem medo da felicidade.

Doce Veneno, Capítulo 12

02 agosto 2016


Quando eu te vi andava tão desprevenido
Que nem ouvi tocar o alarme de perigo
E você foi me conquistando devagar
Quando notei já não tinha como recuar
 
- Isa, quero fazer as coisas de uma forma mais tranquila. Esse é o Flávio, meu companheiro
- Prazer, novamente, Flávio.
- Oi, Maysa. - ele trocaram um forte aperto de mãos com os olhos emocionados.
Caetano convidou a irmã e o namorado para se conhecerem melhor. Arrumou a mesa com pães, biscoitos e um delicioso bolo de chocolate. Era uma tentativa de reconciliar os dois.
Maysa começava a aceitar o namoro do irmão, ainda mais ao conhecer melhor Flávio.
...
- Cadu, faz tempo isso, mas você chegou a encontrar com a Nathalie durante o congresso?
- Que congresso?
- Aquele do Rio
- Ah, amor, já faz tanto tempo isso.
- Ou você fala ou vou começar a pensar que você está me escondendo alguma coisa.
À medida que Maysa ia falando Cadu ia se encolhendo, desviando o olhar.
- Começou...
- Você vai falar ou vou ter que perguntar pra aquela biscate?
- Ah, Maysa, que coisa chata!
- O que é chato? Você estar me escondendo algo ou eu não ser burra o suficiente pra ficar de trouxa?
- Para com isso, vai!
- Não vou parar até você abrir o jogo!
- Senta aqui. Eu achei que não fosse algo que deveria te contar, porque não queria te chatear. Você já tava mal por conta do seu irmão e eu simplesmente achei que não valia a pena falar.
- O que houve?
- Seguinte. Você lembra que foi a Nathalie que me falou desse congresso, certo?
- Sim, e...?
- Pois bem. Eu não dei muita trela, até porque você ia comigo. Eu não tenho nada a ver com ela a não ser interesses relacionados ao curso. Eu evitei encontrar com ela desde o início, mesmo quando você tava lá porque eu sei da sua rixa com ela.
- Hum...
- Só que ela descobriu onde eu tava e se mudou pro mesmo andar no hotel que a gente se hospedou. No começo eu achei que era coincidência, mas comecei a achar estranho o fato de encontrar com ela em todos os horários que eu descia. Até o dia em que ela me ligou no apartamento. Eu tava cansado, já tinha bebido um pouco e não consegui recusar o pedido dela de vir no meu quarto. Ela falou que queria falar sobre a palestra do dia seguinte. Eu tentei recusar, mas ela foi muito insistente. Enfim.
- Estou escutando.
- Bom... Ela veio no meu quarto, vestida de lingerie. Eu percebi que o intuito era outro e pedi que ela fosse embora. Ela insistiu e empurrou a porta do quarto. Eu tava meio bambo e não tive força para impedir sua entrada. Ela deitou na minha cama, mas eu pedi pra ela sair. Tive que puxá-la pelos braços, mas ela conseguiu me dar um beijo, um selinho, na verdade. Daí eu me irritei e empurrei ela.
Maysa começou a enrubescer desde o início da conversa, mas agora estava vermelha feito um camarão. Quando ouviu as ultimas palavras suas mãos tremiam.
- ELA O QUÊ?
Foi então que o ódio tomou conta de Maysa. Ela se levantou num rompante e começou a arremessar tudo o que via pela frente na parede.
- DESGRAÇADA! LADRA DE NAMORADO!
- Calma, Maysa! Pelo amor de Deus!
Cadu agarrou Maysa por trás, segurando os braços para que ela não quebrasse mais nada.
- Por favor, calma. Olha pra mim - girou seu corpo para que ficassem frente a frente - Isso não significou nada pra mim, acredita. Eu achei tão insignificante que não vi razão de te contar. Até porque eu sabia que você não ia reagir bem.
- Me solta! Me solta!
- Soltei. Agora me escuta. Aquilo não significou nada pra mim, e eu não quero que signifique pra você também. Porque eu te amo.
- Cadu, me dá um tempo!
- Que?
- Eu preciso pensar.
- Você tá me pedindo um tempo? É isso mesmo que eu tô ouvindo?
- É, é isso mesmo! Você me escondeu uma situação muito grave, Cadu. Eu nem sei se posso mais confiar em você.
- Como é? A maluca se atirou em mim, se enfiou no meu quarto, me beijou a força e eu vou ter que pagar pelas besteiras que ela fez? Ah, Maysa, você realmente não sabe o que tá dizendo. Mas quer saber? Que seja feita a vossa vontade! Não é assim sempre? Aproveite bem esse tempo.
Cadu saiu pisando fundo e deixou Maysa falando sozinha.
Por um lado ele estava errado, afinal de contas, bem ou mal, ele tinha que ter contado o que acontecera no Rio. Mas Maysa tinha exagerado. Cadu sempre fez de tudo por ela e para ela, e por conta de uma situação da qual ele nem sequer teve culpa, ela, mais uma vez, tripudiou dele.
O problema é que pela primeira vez Cadu não quis ceder à vontade dela.
Pela primeira vez ele sentiu o orgulho ferido.
Eram dois bicudos.
E todo mundo sabe que dois bicudos não se beijam.
... Não sei se eu traí primeiro ou fui traído
Não te pedi uma conduta exemplar
Mas é que a sua ausência é o que me dói no calcanhar...

Eu não te respondo mais

07 julho 2016


Era tarde da noite e você me chamou como havia feito há alguns meses atrás, perguntou sobre a minha vida, queria saber se eu estava bem, pois bem, eu estava até o momento em que você reapareceu. Estava bem até o meu celular vibrar e a mensagem que eu abri ser sua. 

Você falou mais algumas coisas e eu ri da situação, ri por perceber o quão boba eu estava sendo de novo e ri porque você ainda me deixava nervosa, mesmo que você não tivesse mais efeito sobre mim, você me deixava nervosa.

No meio da conversa, que sempre dispensou apresentações, afinal, a gente se conhecia tão bem, eu percebi que eu já não te conhecia mais. Eu já não sabia mais com quem eu estava falando, não sabia mais se valia a pena ficar até a madrugada falando com alguém que não tinha mais o poder de mudar a minha vida. 

Te perguntei como você tava e você disse que estava tudo bem, que a vida estava seguindo e que você estava feliz. Nessa hora me perguntei o porque você havia me chamado e percebi que alguns espaços, por menores que sejam, sempre são difíceis de ocupar. Mesmo bem, você estava ali, buscando um jeito de falar comigo, um jeito de se sentir melhor.

Você buscava em mim, o que você não tinha naquela sua "felicidade" que era estampada nas fotos do Instagram e nas publicações do facebook, a felicidade que vai além das palavras e dos sorrisos pro outro ver. 

Você buscava ali, através daquela mensagem um jeito de ser a gente de novo, mesmo que por alguns segundos, você buscava o ombro amigo e o cafuné aconchegante, estava ali buscando um colo quente num inverno que não era tão frio quanto a vida que você estava vivendo. 

Por mais que o tempo tenha passado e as coisas tenham mudado, você buscava em mim um refúgio do mundo que você aceitou viver, mas eu já não estava mais disposta a ser alguém que você só viesse ver, eu já não tinha mais motivos para receber aquelas mensagens e muito menos para responder.

Li novamente a nossa conversa e tive ainda mais certeza de que eu já não te conhecia mais, você ainda era aquele bom rapaz, mas vivia uma vida que eu não queria mais. Deixei a mensagem sem resposta e a setinha azul te mostrarem que agora, já era tarde demais, eu não te respondo mais.

Doce Veneno, Capítulo 11

16 junho 2016


Eu amo esse lugar, mas ele é assombrado sem você
Meu cansado coração está batendo tão devagar
Nossos corações cantam menos do que nós queríamos
Nossos corações cantam porque... 
Nós não sabemos... Nós não sabemos

Os dias que seguiram foram mais difíceis pela barreira que Maysa impôs ao irmão. Caetano fazia o possível para conversar com ela, mas Maysa, como boa escorpiana que era, reagiu da pior forma. Por um lado, não sabia assimilar a descoberta da homossexualidade do irmão, por outro se sentia traída por ter sido a ultima a saber disso.
- Ju, como foi pra você quando cê descobriu que o Miguel era gay? - Maysa perguntou, tentando disfarçar o constrangimento lixando as unhas com certo desdém.
- Ah, Isa. Eu sempre soube.
- Como assim?
- Ele sempre teve um comportamento diferente, sabe?! Não que isso fosse ruim... Mas eu reparava que ele era muito sensível, muito apegado à mim, indo nos mesmos lugares que eu. Até aí, nada estranho. Só que além disso, ele saía mais com meninas que com meninas, gostava de moda e coisas que os meninos geralmente não curtem. Quando foi chegando na adolescência, eu comecei a perceber essas diferenças se acentuando e, mais que isso, eu reparei na forma como ele olhava os rapazes. Ele teve certa dificuldade de aceitação no início, mas isso foi resolvido com diálogo dentro de casa mesmo, sabe?! Até porque nossa mãe sempre foi muito de ter conversas abertas com a gente. Sexo, por exemplo, nunca foi tabu. Então eu acho que foi mais ou menos tranquilo, porque, de uma forma ou de outra, a gente já sabia.
Maysa ficou extremamente pensativa ao ouvir tudo aquilo. Claro, as realidades eram bem diferentes. A Marina, mãe da Júlia, era mãe solteira de dois jovens e sempre foi uma mulher de mente aberta. A relação entre mãe e filhos era de amizade verdadeira. Coisa que Maysa nunca teve.
Na verdade, o irmão foi meio que levado a tomar esse lugar quando a mãe faleceu, logo cedo. O pai dos dois sempre estava distante, pelos negócios em outras cidades e países, e com o passar dos anos cada um foi aprendendo a se virar. A condição financeira facilitou muita coisa para ambos. Mas não foi capaz de preencher o vazio ocupado pela mãe.
- Maysa, eu acho que você devia, pelo menos, tentar ouvir o Caetano. Eu não sei o que tá passando na sua cabeça, mas eu te entendo perfeitamente. Só não permita que essa confusão dentro de você te afaste dele. Porque, independente de qualquer coisa, ele é seu irmão, sangue do seu sangue, e mais que isso, te ama como ninguém.
O final de semana chegou e domingo seria o primeiro Dia dos Namorados que Maysa passaria com Cadu. O casal foi passar o sábado e o domingo num hotel fazendo fora da cidade. O local era lindo, com um lago na frente do hotel, um espaço para cavalgar e muitas árvores. Apesar do frio que fazia, os dois passaram a tarde cavalgando e desbravando um pouco daquele lugar incrível.
A noite, Cadu convidou Maysa para jantar. Ao final, já chegando no quarto, ela olhou no relógio e fez uma careta.
- O que foi? - perguntou Cadu
- Já é domingo.
- E o que tem?
- Dia dos Namorados.
- Qual o problema?
- Bem... Eu não comprei nenhum presente pra você.
- Ah, amor... Deixa de besteira.
- Na verdade, eu comprei pra mim.
- Não entendi.
Então Maysa puxou Cadu pelo cinto e jogou-o sobre a imensa cama branca. Fechou a porta e rapidamente se colocou na frente dele de novo.
- Eu comprei essa lingerie aqui - ela falava enquanto tirava o sobretudo e o vestido - Mas não tenho certeza se seria um presente à sua altura, sabe?! O que você acha?
- Uau...Acho que, no momento, eu não tenho palavras para descrever o quanto eu gostei desse presente. Mas posso tentar demonstrar minha gratidão de outra forma. Vem cá.

...

No dia seguinte, Maysa acordou um pouco mais cedo e pediu que entregassem o café no quarto. Enquanto arrumava a mesa, ligou a TV para ouvir o noticiário.

Ataque em boate gay deixa cinquenta mortos em Orlando nos Estados Unidos. É o pior ataque a tiros da história norte americana. O pai do suspeito diz que o crime provavelmente ocorreu por motivações homofóbicas.

- Meu Deus!
- O que foi amor?
Os olhos de Maysa se encheram de lágrimas que não podiam ser contidas. Ela pensou no sofrimento daquelas tantas pessoas dizimadas. Ela sentiu pela perda das famílias dos mortos. Mas naquele momento ela sentiu a dor pelo irmão, que era homossexual. Como alguém poderia ser tão cruel a ponto de tirar a vida simplesmente por não aceitar um dado comportamento? Com que direito alguém poderia violentar os outros de uma maneira tão estúpida e mesquinha? E se seu irmão estivesse entre eles?
- Podia ser o Caetano.
- Mas não é. Fica calma, tá?
- Cadu, eu preciso ir.
- Tudo bem. A gente toma café e vai. Pode ser?
Ela acenou afirmativamente com a cabeça.
Depois do café, eles pegaram a estrada e Cadu deixou Maysa em casa.
- Caetano? - Maysa berrou ao entrar em casa.
- Tô aqui, Isa.
Maysa correu para a sala e se jogou nos braços do irmão, o abraçando com toda força.
- Eu te amo, meu irmão. Me perdoe por não te aceitar como você é. Eu vou mudar, a partir de hoje. Me perdoe.
Os dois choraram abraçados por longos minutos.
Mas era um choro de reconciliação.
Um choro de amor.
Para iluminar a noite
Para nos ajudar a crescer
Para nos ajudar a crescer
Não é dito
Eu sempre sei

Sobre o relacionamento miojo e ser feliz sozinho

25 maio 2016


Um dia desses me perguntaram "E ai, você não tá com ninguém?" e eu como sempre, na maior calma do universo e com a maior naturalidade do mundo respondi "não", a pessoa não satisfeita com a minha resposta perguntou "mas você não precisa de ninguém?", fiquei em silêncio, deixei passar e fui embora pensando naquela frase "você não precisa de ninguém?".

A verdade é que ninguém nessa vida precisa de ninguém, a gente gosta de estar com alguém, mas precisar, não precisa. Somos nós os únicos donos da felicidade e não precisamos de um relacionamento para nos apoiar, claro que é sempre bom ter alguém pra dividir momentos bons e momentos ruins, mas isso não é uma regra, ninguém tem a obrigação de ficar com ninguém só por medo de ficar sozinho.

O que eu quero dizer é que as pessoas tem sentido tanto medo de ficar "sozinho" que tem aceitado ficar com qualquer pessoa, um tapa buraco, sabe? Relacionamentos começam e terminam todos os dias por vivermos numa época em que os "relacionamentos miojo" estão sendo cada vez mais comuns. 

Relacionamentos esses que surgem rápido, que em pouco tempo vira um "amor da vida". Veja bem, não estou dizendo que você não pode trombar com alguém por aí, se apaixonar loucamente e descobrir que aquela era finalmente a pessoa que você esperou tanto tempo. Estou apenas dizendo que isso é tão incomum nos dias de hoje que a gente sempre tromba com a pessoa errada, porque as pessoas certas estão sendo o estepe de alguém.

Portanto meus caros, o que eu quero deixar claro pra vocês é que ninguém precisa de ninguém, ninguém precisa de um relacionamento miojo, ninguém precisa depender do outro para ser feliz, nós precisamos andar com as nossas próprias pernas. Precisamos ser felizes sozinhos para que a gente não se sinta só. 

De nada adianta a gente viver a felicidade do outro e não ser capaz de viver a nossa própria. Por mais estranho que isso seja aos olhos dos que sempre dependem de alguém, precisamos nos bastar. Precisamos ser o copo cheio e encontrar alguém para nos transbordar, porque ninguém nesse mundo merece ser sempre o copo meio vazio, muito menos o coração meio vazio. 

Se preencha de amor e seja sempre o amor da sua vida, afinal a pergunta que fez tanto barulho dentro de mim, merecia uma resposta curta e objetiva: Eu não preciso de ninguém e espero que você não precise também, porque quando a gente precisa de alguém a gente aceita o que vem.
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