Ela, Paris

05 julho 2011

Ela levantou quando o sol ainda nascia. Um banho quente e o uniforme de sempre: saia rodada e regata branca. Fazia sentir-se mais confortável, sentia-se em casa. O perfume, cada dia um diferente, é estratégico: deixar o rastro de uma pessoa diferente a cada dia. Até porque a cada dia ela acorda de um jeito.  Um café forte e um longo caminho a percorrer. Escritório, academia, jantar à luz de velas às margens do rio. Sozinha.
Ela cansou dessa vida, mas não chega a ocupar tanto espaço naquele coração. A rotina, já acomodada, com casa-comida e roupa-lavada, já sabe o caminho de cor e salteado. Uma baladinha aos fins-de-semana, reuniões extras aos sábados pela manhã. Um telefonema aqui e ali, mas nada que a faça sorrir abobalhada ou dar bom dia aos bem-te-vis. A coragem de conhecer a saudade, a coragem de se entregar de corpo e alma para algo incerto, vêm a cada noite em que ela descança a cabeça para dormir. E a surpresa de cada manhã, de cada dia diferente. Ela sorri, ela quer abraçar o mundo, mas nos seus planos só chega até a metade. Ela quer quer filhos, dois. Um casal pra não ter brigas. Mas se forem duas meninas não tem problema não. Ela quer acordar de manhã cedo e antes do trabalho comprar o pão quentinho na padaria da esquina. Mesmo que seja pra comer sozinha.
Ela quer ter alguem pra assistir filmes de terror, ou até mesmo alguém pra abraçar quando os problemas do trabalho lhe subirem a cabeça. Alguém pra fazer companhia no jantar à luz de velas, que divida o macarrão como naqueles filmes de cachorro romântico. Mas que no fim do dia esteja lhe esperando com um sorriso no rosto -  mesmo que seu único desejo seja cair na cama e adormecer profundamente.
Ela tem planos, tem sonhos. E tudo isso em terceira pessoa. Porque ela se acostumou assim. Seus sonhos não são suficientes pra transformar o eu em nós. Ou vós. Ela só precisa de realidade. De um pózinho mágico em que tudo brilhe. Ou até um gênio da lâmpada que possa lhe conceder três desejos. E quando se deu conta, havia mudado a cor dos cabelos, de metáfora e de trilha sonora. Saiu do velho MPB e bossa nova brasileira (mesmo que morasse às janelas do Eiffel). Ela entendeu que mesmo que não pudesse mudar a rotina, podia mudar a sí mesma, e assim continuar encantando o mundo com sorrisos e olhares. Ela era apaixonada pela vida, pelo trabalho, pela regata branca e o café quentinho de manhã cedo. Até do sol nascente francês.
Mas nada mudaria suas raizes, apesar da cor do cabelo. E mesmo desejando ardualmente um furacão que balançasse sua vida, ela continua respirando, dormindo, acordando, jantando sozinha.. e aceitando a vida como ela é.

Postado por: Alana Monteiro
Alana Monteiro Aquariana, Paraibana e atualmente morando no Maranhão. Flamenguista, pivô, escritora por diversão, ex-intercambista, futura diplomata e colecionadora de livros.

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