Invisível (capítulo final)

28 julho 2011

- Laís, Laís, Laís? – eu ouvi uma voz familiar.

- Oi? – respondi, ainda sem força nenhuma.

- Graças a Deus, minha filha – minha mãe me abraçava e chorava.

Percebi que eu estava em uma cama de hospital, rodeada de aparelhos e não sabia o por quê. Meu pai também estava lá, sentado em uma cadeira, no canto do quarto, com a aparência cansada, de quem não dorme há uns dois meses.

- Mãe, pai, o que aconteceu? – perguntei sem entender nada.

Meu pai levantou, me abraçou e disse: - vai ficar tudo bem, filha, a gente vai chamar o médico, ele vem te examinar, nós voltamos para casa e depois te explicamos tudo, pode ser? – fiz que sim com a cabeça.

Fiquei sozinha no quarto por cinco minutos, enquanto meus pais conversavam com o médico no corredor. ‘Ela ainda está muito fraca, mas acho melhor continuar a recuperação em casa’ – foram as únicas palavras que eu ouvi. O que havia acontecido? Eu não me lembrava de absolutamente nada, nada mesmo. Eu estava tentando me esforçar, mas memória alguma vinha em minha mente.

- Filha, amanhã mesmo a gente já volta para casa, tá? Você só precisa ficar mais essa noite aqui, viu? Depois a gente já volta pra nossa casinha – uma lágrima caiu de seu olho esquerdo.

- Mãe, vem cá – eu a chamei – eu estou bem, tá? Não se preocupa.

Ela assentiu com a cabeça e saiu do quarto, puxada gentilmente por meu pai, quando percebeu outra pessoa na porta. Um menino. Lindo. Perfeito. Ele não me era estranho.

- Laís, meu amor, não acredito. Eu estava tão preocupado – veio e me beijou. Espera, quem era ele mesmo? Meu namorado? Eu não me lembro de namorar, eu não me lembro de nada.

Percebendo meu estranhamento, ele se explicou: - eu sou o Guilherme, você trabalhava com a minha mãe, estilista, lembra? – não falei nada, então ele continuou – há três meses, você estava voltando do ateliê e sofreu um acidente, um carro desordenado invadiu a calçada onde você estava e te jogou longe. Você ficou desacordada, deitada no meio da rua. Como foi do lado de casa, eu ouvi o barulho, mas quando eu cheguei lá já era tarde demais, você já estava sem consciência. Eu chamei uma ambulância e desde então você está aqui se recuperando. Já passou por algumas cirurgias e olha pra você, continua linda mesmo depois de tudo – ele chegou perto de mim e beijou minha testa. Mas dessa vez eu olhei para sua boca, fechei os olhos e ele fez o resto, me beijou. Um beijo lento, quente, com amor, com cuidado.

- Eu lembro de você – falei. Agora eu realmente lembrava. Aquele beijo era meu, ele era meu, aquele beijo era meu sonho desde sempre – só não me lembro que a gente estava namorando – sorri.

- Nós não namoramos – ele sorriu e fez uma carinha de safado.

- Ahm, não? – perguntei, rindo.

- Eu ia te pedir em namoro dia seguinte, mas você sofreu o acidente. Eu sempre fui apaixonado por você, desde quando eu te vi pela primeira vez no ateliê da minha mãe. Eu senti uma coisa que eu nunca tinha sentido, sabe? Não sei como explicar – sorriu.

Eu não respondi, só olhei pra ele e sorri. Acho que ele entendeu, pois veio, me abraçou e me beijou mais uma vez.

- Amiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiga! – uma voz feminina.

- Pâmella? – o nome dela saiu da minha boca sem que eu soubesse o por quê.

- Não acredito que você está bem, sério, nossa, eu rezei tanto por você. Tenho tanta coisa pra te contar, você não sabe de todas as novidades... – ela começou a falar que nem louca. Eu lembrava dela, vagamente, minha melhor amiga, eu lembrava. Ela me contou tudo, todas as novidades, tudo o que eu perdi, novidades sobre o namoro dela com o meu melhor amigo, o Felipe, que estava viajando, mas assim que soube que eu estava melhor, já tinha marcado a passagem de volta e chegava amanhã. A Pâmella me fez lembrar de tudo o que eu não recordava, agora tudo estava ficando mais claro.

- Com licença – disse o médico, já entrando no quarto – Laís, você acordou hoje, mas já está na hora de repousar, muita informação em um dia só pode atrapalhar na recuperação, tá?

Meus amigos começaram a sair do quarto.

- Doutor, ahm, Fernandes? – li em seu crachá.

- Sim – ele disse.

- O Guilherme pode ficar aqui essa noite?

Ele viu minha cara de apaixonada, sorriu e disse – se for só ele, sim. Eu vou chamá-lo – e saiu.

- Sabe que você é incrível, né? – Guilherme disse, me abraçando e me surpreendendo com mais um beijo.

- Fica aqui comigo, tá? – eu disse, virei para o lado e dormi, antes mesmo de ouvir a resposta.

Sonhei. Pela primeira noite, sonhei. Sonhei com o acidente.

- Meu anjo, Laís, acorda, para de gritar – Guilherme estava aflito – eu vou chamar o médico.

- AAAH – eu levantei rápido.

- É normal, ela pode ter vagas lembranças do acidente – o médico disse, acalmando Guilherme, mamãe e papai – hoje que ela volta para casa, é bom que não fique sozinha nunca, principalmente à noite.

Recebemos as orientações necessárias e eu finalmente voltei para casa. Foram três meses não fazendo praticamente nada, acompanhada sempre, amando o Guilherme, estudando em casa, desenhando, me divertindo com o Felipe, sim, ele havia voltado e nós estávamos mais unidos do que nunca. Seis meses depois eu já estava bem, tinha voltado a trabalhar, ir à escola e voltar a fazer as coisas que eu tinha abandonado.

- AMOR, AMOR, AMOR, você passou no concurso! Laís, você vai para a Europa estudar moda! Acabaram de ligar pra minha mãe falando que você tinha sido selecionada – Guilherme berrava no telefone.

- MENTIRA, MENTIRA, MENTIRA, MENTIIIIRAAA!!!! – eu berrava mais ainda – estou indo aí.

- MÃÃÃÃE, PAAAAI, EU VOU PRA EUROPA, PASSEI NO CONCURSO, AAAAAH!! – passei pela sala voando.

- Estamos indo ao supermercado, quer uma carona para o ateliê, minha linda? – meu pai perguntou, adivinhando o lugar que eu ia.

- Sim, quero – falei.

- Agora que você vai pra Europa, a gente tem que passar 24 horas por dia contigo, né filha, vou morrer de saudades – disse minha mãe, já quase chorando.

- Ah mãe, vem aqui – abracei-a, sorrindo.

Cheguei no ateliê e o Guilherme já estava na porta. Ele me abraçou e me girou, como sempre fazia, depois me beijou.

- Quem vai pra Europa, quem vai? – ele perguntou, rindo.

- Amor, você vai comigo? – eu disse.

- Ah Laís, você sabe que eu não posso. Eu iria, eu faria qualquer coisa pra ir, mas não dá – ele falou.

- Tá, tudo bem – eu falei, virando a cara.

- Ei, você vai em uma semana, a gente não vai brigar agora, né? Eu vou te visitar, você volta para o Brasil. Vou te esperar aqui – ele falou.

- É, você está certo – eu disse e o beijei.

Ficamos lá a tarde toda, fazendo absolutamente nada e se divertindo com isso.

A semana antes da viagem foi uma correria, era mandar papeis para a Europa, escolher meu quarto na faculdade, terminar a mala, comprar o que faltava, eu estava ficando louca, mas amando tudo aquilo. Fizeram uma festa de despedida e tudo foi incrível.

- Laís, houve um imprevisto e eu vou ter que viajar, me desculpa, amor, me desculpa – Guilherme liga dois dias antes da minha viagem.

- Não, mentira né Guilherme. Mas para onde, com quem, por que, quando você volta? – mas ele já tinha desligado o telefone e não havia me atendido nem respondido as minhas mensagens. Eu estava brava, triste e decepcionada. Eu viajaria em pouco tempo e ele nem tinha me dado tchau.

Chegou o grande dia, já estávamos no aeroporto.

- Pegou tudo, filha? Qualquer coisa você pode ligar pra mamãe, tá? Vou sentir saudades, meu anjo, fica bem, tá? – coisa de mãe, eu ia sentir falta. Abracei-a forte.

- Aproveita muito lá, minha princesa – meu pai, sempre sabendo o que falar para me acalmar. Abracei-o antes de ir.

Horas e mais horas dentro de um avião, tudo isso para realizar um sonho. Mas Guilherme não saía da minha cabeça, eu ainda não tinha entendido por que ele tinha feito aquilo, onde ele estava? Peguei no sono e acordei com a aeromoça falando no auto falante do avião, anunciando o pouso em meia hora. Olhei pela janela. Europa, linda, sorrindo para mim.

Desembarcamos. Eu estava amando tudo aquilo. Peguei minha mala e saí da sala de desembarque. Assim que eu saio, vejo Guilherme ali, parado, sorrindo, pra mim. Me esperando com uma caixinha na mão.

- Não, eu não acredito – eu falei, que nem boba, sorrindo que nem uma retardada.

- Você achou mesmo que eu ia te deixar? – ele riu.

- Ah... – comecei a responder, mas ele me beijou.

- Quer namorar comigo? – ele se ajoelhou ao fazer o pedido. Eu não estava acreditando naquilo, será que ainda era o sonho do avião?

- Sim, sim, siiiiiiiim, óbvio que sim, Guilherme – ele se levantou, colocou a aliança em minha mão, me abraçou, beijou e me girou, como sempre.


Era o começo de uma nova vida, uma nova Laís, uma nova fase.


Postado por: Olivia Dias
Olivia Dias 17 anos, tímida, viciada em tumblr e all star. Dorme de moletom, shorts e meia três quartos, independente do clima. Quando fala de tudo aquilo que realmente gosta, seus olhos brilham. Tem um amor imenso pelo seu travesseiro.

3 comentários:

  1. Oii, amei o seu blog, AMEI mesmo! HAHA :*
    Será que poderias participar do sorteio que está rolando no FPN?
    http://informacaopop.blogspot.com/2011/07/sorteio-fpn-vanessa-heichsen.html
    Ficarei muito grata, seguindo aquii!

    Smacks DF!

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  2. Só uma palavra: ESPETACULAR!
    Amei o final, muito lindo mesmo. É apenas o que falta na maioria das vidas de nós, mulheres, um homem que nos ame tanto quanto o Guilherme.
    Amei.

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