desenrola (capítulo xiv) penúltimo capítulo

18 dezembro 2011


Você já sentiu como se um turbilhão de memórias retornasse à sua mente?
Quando vi aqueles olhos, uma enxurrada de lembranças veio à tona. A primeira vez que os vi na cafeteria em meio a um dia completamente chuvoso, o nosso primeiro beijo, quando dormimos juntos, quando ele teve um ataque de ciúmes em relação ao Lucas, quando ele me pediu em namoro, e tantas outras fotografias que meus olhos haviam tirado deles, que terminavam com o nosso término. Um triste fim para um álbum tão lindo.
Foi imensamente difícil manter os olhos firmes naquele que fora um dia meu porto seguro, que me ensinara a enxergar o amor de outra forma, que me fizera por tanto tempo feliz. Eu estava completamente estática, sem saber o que sentir. Não conseguia deixar de amá-lo, mas ao mesmo tempo sentia que nada do que ele me dissesse iria mudar o que ele tinha feito comigo.
- Oi Mel.
Não consegui responder, não sei se minha cor se alterou ou se simplesmente esqueci de firmar meus pés no chão, dois ou três segundos depois de ouvir sua voz, o mundo a minha volta pareceu girar. Um tom turvo se formou em meu campo de visão até que eu sentisse vozes gritando por meu nome e mãos tentando não me deixar cair. Desmaiei, sem saber.
Não sei quanto tempo se passou desde então, se eu dormi por horas ou por dias. Só sei que estava em minha cama quando consegui abrir os olhos novamente, tentando conectar as idéias novamente. Tentando entender se aqueles olhos foram só mais um sonho meu ou se eram reais.
- Você está melhor, Mel?
Ele estava sentado na ponta da minha cama, como se estivesse fazendo isso há muito tempo, com um ar evidente de preocupação.
- Acho que sim...
Ele me olhou de novo, esperando que eu dissesse alguma coisa. Esperando talvez que eu o expulsasse dali. Lembrei-me que eu tinha um gênio forte, mas no momento este gênio estava muito cansado para se desgastar com coisa pouca.
- Olha, eu não sabia que você reagiria dessa maneira quando nos encontrássemos. Não sei, esperei por algo diferente...
- Como o quê? Que eu te enxotasse a vassouradas ou que caísse em cima de você, te quebrando a cara?
- Seria uma das possibilidades...
Preferi não imaginar quais seriam as outras, sentindo o quão doloroso aquilo tudo era pra mim.
- Então, acho que posso vir aqui amanhã pra conversar...
- Desculpe interromper, mas ainda é domingo?
- Sim, você desmaiou quando era final de tarde, e agora são exatamente - ele olhou o relógio no pulso - 7:30 da noite.
- Uau!
- Um bom descanso, não? - um pequeno sorriso se fez em seus lábios
- Teria sido melhor, se não tivesse acontecido por um motivo tão assustador.
Seu sorriso se desfez, e seus olhos tornaram-se baixos novamente.
- Mas então, você disse na carta que queria conversar comigo - preferi não usar os termos apropriados, pelo menos uma vez na vida - e acho que pode ser agora, já que amanhã começo a trabalhar.
Ele pareceu não acreditar na firmeza de minhas palavras, muito menos no meu tom seco e racional.
- É meio complicado...
- Eu consigo, pode falar. - mais uma vez seus olhos pareceram revelar um certo pânico com o meu jeito
- Eu sempre fui muito sincero em relação ao que eu sentia por você..
- Sério mesmo? Depois daquele dia nunca mais pude acreditar nisso. - não pude conter o meu sarcasmo, não pra aquele que o merecia
- Sério. Eu nunca te disse que te amava sem sentir isso profundamente, assim como nunca te fiz qualquer promessa sem desejar cumpri-la, por mais que você não acredite.
Ele respirou fundo, e eu deixei que ele continuasse.
- Naquela noite que eu disse que não poderia continuar contigo, tinha um motivo por trás daquilo...
- Um motivo óbvio, que você deixou de me amar. Simples, só não fácil.
- Não. Era algo pior...
- Pior?
- Sim, Mel. Sabe porque eu tive que lhe deixar?
Senti que escorria uma imensa dor de suas palavras, e estava disposta a acreditar naquilo. Pelo menos nisso.
- Porque?
- Eu estava doente. Um mês antes daquele dia, eu senti uma dor de garganta forte. Foi uma semana que eu fiquei quase sem te encontrar, se lembra?
- Acho que sim, eu tinha percebido que você estava meio distante, mas você dizia que era só uma gripe, e que quando melhorasse voltava.
- Então, eu inventei essa desculpa pra você não se preocupar tanto. Procurei um médico porque a dor permaneceu constante por mais de três dias, e além disso eu tava com dificuldade na hora de falar, de engolir e rouquidão. E descobri algo que eu menos esperava, que eu estava com câncer de faringe, ou garganta.
Sei lá, a palavra câncer sempre me pareceu algo normal, porque já tinha visto muitas pessoas com isso, mas em mim? Sabe como se aquilo que você acabou de ouvir fosse algo impossível?
- Sei bem...
Ele entendeu, mas prosseguiu.
- Eu fiquei meio sem chão naquele dia, não queria me expor a nada. Não queria que ninguém soubesse, que ninguém tivesse pena de mim... que as pessoas que eu amo sofressem por minha causa... - quando disse isso, levantou os olhos, como se quisesse segurar minhas mãos e trazer de volta tudo aquilo que já se foi, que parecia não ter mais concerto.
- Eu tentei, Mel. Tentei não demonstrar nada do que estava acontecendo, mas no fundo eu teria que escolher entre deixar você naquele instante ou depois... caso acontecesse... o pior.
- Porque você não me contou? Tudo poderia ter sido tão diferente...
- Eu não podia! Como iria te contar que eu estava com câncer? Que eu poderia morrer? Isso me doía, Mel. Tenha certeza, nunca ia querer terminar com você se não fosse por algo tão extremo, ou você acha mesmo que eu gostei de ter abandonado tudo o que eu tinha, isto é, você?
Nesse exato momento tive vergonha do que eu senti, mas ainda assim doía, não na mesma intensidade, mas de uma forma um tanto diferente e um tanto...
- Não tem problema, você tinha o direito de pensar o que quisesse do que eu tinha feito. Você não tinha como saber da verdade mesmo.
- Eu tentei te procurar, tentei ligar, mas...
- Eu troquei meu número pra não voltar atrás, apesar de ainda guardar seu número, numa agenda velha.
- E você tá aqui porque?
- Eu preferi fazer o tratamento aqui, mesmo sabendo que poderia fazer tudo lá. Queria me manter longe de tudo, e de você, principalmente... pra não correr o risco de voltar atrás. Descobri que o câncer não era maligno, e isso me ajudou muito a enfrentar o problema, mas já era tarde pra mudar de ideia, já estava aqui em Londres. E tô fazendo um tratamento ainda, mas o médico me diz que estou quase curado.
- E como você está, agora?
- Bem, como você já deve ter percebido, ou não haha - ele tirou o chapéu preto - tive que aparar um pouco aquele cabelo que você adorava mexer.
- Nossa!
- Tô muito feio? haha
- Você é lindo de qualquer jeito...
E nós dois ficamos sem graça, ao revelar memórias que ainda pareciam fortes em nossas vidas. Tão fortes que as palavras saíam naturalmente.
- Bem, eu... pedi para que um amigo meu, digamos, tomasse conta de você. Pra me informar como você tava, se você estava bem...
- Quem?
- Seu amigo, o Arthur. Ele era um amigo de infância, e você nem sabia, e eu não quis que soubesse no momento porque imaginei que você não deixaria, ou melhor, não ia querer que eu soubesse de nada.
- Pelo contrário, ia adorar saber... - disse, quase sussurrando.
- O que você disse?
- Nada.
- Mel, eu sei que te machuquei muito, mas nunca foi minha intenção, entende? Eu jamais iria querer que a pessoa que eu amo sofresse por minha causa.
- Eu sofri do mesmo jeito, talvez ainda mais...
- Eu sei que eu fiz mal, e sabe, me arrependo por isso. Porque poderia ter sido menos doloroso pra nós dois, mas naquela hora eu não tinha certeza de nada.
- Eu sei...
- Então, eu vim pra saber se algo poderia mudar...
Meu coração pulsou mais rápido nesse momento, e os olhos dele pareceram reacender algum tipo de luz.
- Como assim?
Ele subiu na cama se sentando ao meu lado, para segurar, com uma mão minhas mãos e com a outra meu rosto.
- Você quer voltar pra mim?

(Continua...)

Isabela Santiago

4 comentários:

  1. Querooo verr o final logoooo!

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  2. Ooi!
    Uau, que texto liindo!

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  3. Ameeeeeeeeei demais esse texto, chorei mttt!! Quero o final logo, hahaha
    O Blog é demais, bjj

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  4. Cade o finall??? Quero muitoo veer

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