Desenrola (Capítulo Final)

07 janeiro 2012

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Eu parei de pensar naquele momento. Ele percebeu e se aproveitou, de certa forma, disso. Foi ficando cada vez mais perto até que eu podia ouvir perfeitamente sua respiração. Ele pegou a mão que segurava e levou até seu peito, para que eu pudesse sentir seu coração. Uma sensação tão nostálgica se refez em mim, podendo sentir seu corpo, seu calor, seu toque e, principalmente, seu coração pulsando. E seu calor parecia se expandir para fora do corpo, e de alguma forma me fazer sentir aquecida sem sequer tê-lo abraçado. Ele se aproximou um pouco mais e pude rever o que tanto me atraiu nele na primeira vez que o vi: seus lindos e profundos olhos, que pareciam emanar um brilho intenso ao me refletir.
Até que em algum momento entre eu sentir seu coração e rever seus olhos, ele me beijou. Foi como se algo gelado tocasse minha pele e um arrepio se fizesse por todo meu corpo. O calor daquele beijo, seu sabor, seu toque suave. Tudo me levava para fora do casulo que se fizera ao meu redor, o casulo que me recobria de dor. E ao abrir meus olhos, vi que os dele estavam fechados como que por sonhar acordado com aquilo que antes nos era tão normal.
Me afastei, sentindo a vermelhidão subindo corpo acima, e baixei os olhos. Antes, pude ver de canto de olho que ele sorria, como se nada de ruim nos tivesse acontecido.
Mas enfim senti novamente a dor que se formara dentro de mim. E não seria um beijo algo capaz de saturá-la.
- Isso pode ser considerado como um sim? - seus olhos pareciam querer saltar, com tanta esperança que refletiam.
- Não. - demorei a dizer, mas quando disse as palavras saíram jorradas, como se uma represa se rompesse dentro de mim - Eu sei que tudo aconteceu por um motivo um tanto quanto concreto,  e até consigo entendê-lo, em parte. Mas isso não quer dizer que não me machuque. Uma parte de mim diz que eu posso te perdoar, mas...
- Mas... ?
- Existe outra que está muito ferida, entende? E vai precisar de tempo para se restaurar por inteiro.
Ele parou um pouco e ficamos um longo tempo assim.
- Eu não entendo muito bem, sabe. Eu sinto, ou melhor, senti que você continua tendo por mim o mesmo de antes. Ou pelo menos foi o que você transmitiu quando nos beijamos.
- Quando você me beijou.
- Quando você fechou os olhos e encostou seus lábios nos meus, melhor assim? Eu senti tudo. Seu calor, seu toque, sua doçura, seu cheiro, a maciez da sua pele, a suavidade dos seus gestos... Você não faz ideia do quanto isso tudo me fez falta... Mas aí, você diz isso... Eu... simplesmente, não... entendo...
- Não disse que deixei de te amar... Só disse que preciso me restabelecer antes. Porque deixou marcas isso que você fez, e dói lembrar de...
- Mas eu quero estar ao seu lado exatamente pra isso. - ele me interrompeu, com os olhos doces e suplicantes - Te ajudar a recuperar o que foi quebrado e consertar o que ainda dá pra consertar.
- E o que não dá pra consertar? E meu medo de te perder de novo?
- Você não conseguiria isso. Até porque estou curado agora. E você seria a ultima pessoa que eu deixaria ir embora.
Aquilo doeu mais ainda. Ver que eu podia recomeçar, mas e o medo de dar tudo errado de novo, por minha parte, por ele...?
- E por isso mesmo, pra que você tenha certeza do que eu sinto, eu resolvi algo por nós dois...
- Como assim?
- É um pedido na verdade, e só depende de você.
- Um pedido?
Ele tirou uma pequena caixinha do bolso do casaco e a abriu:
- Melissa, você quer casar comigo?

Me lembro como se fosse ontem tudo isso, com um sorriso nos lábios e algumas lágrimas de emoção ao ver a aliança de ouro em minha mão esquerda. Agora moro em Londres, com o Renato. Trabalho na redação de um jornal, de verdade, e junto dele. O Arthur preferiu voltar para o Brasil e seguir a carreira de repórter. Moramos num apartamento pequeno, com uma varanda que fica linda durante a primavera.
Nesse momento, estou sentada na varanda e é início de inverno. O Renato acaba de trazer duas canecas de chocolate quente, e está sentado ao meu lado. O câncer foi embora, graças ao bom Deus, e ele parece melhor do que nunca, apesar de ainda irmos sempre à uma consulta de rotina, pra ter certeza de que está tudo bem. Ele mudou um pouco, sabe. Os cabelos cresceram, juntamente com a barba, que pra mim, o faz ainda mais lindo. Um pouco menos jovem, como eu, mas acho que ainda mais belo. E seus olhos... Ah, Deus sabe o efeito que eles tem sobre mim, todos esses dias. Percebo que o frio começa a apertar, e ele também. Ele entra e senta na sua cadeira, me chamando para que eu faça o mesmo. E então ele me puxa para si, e coloca a mão sobre minha cintura e eu o beijo, docemente.
Sabe, nunca me imaginei aqui antes, nada disso pra mim faria algum sentido há cinco anos atrás. Mas a vida é cheia de tantas voltas e reviravoltas que acabei aprendendo a deixar que ela se encaminhe de nos trazer as tais alegrias. No seu eterno desenrolar...

Fim


Isabela Santiago

3 comentários:

  1. perfeitamente lindo,parabens por escrever tão bem (;

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  2. Você escreve muito bem :D Parabens Adorei //
    Segue . Retribuo
    http://blogvous.blogspot.com/

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  3. Oi, tudo bem?
    O Refúgio das Palavras começa 2012 com grandes novidades e vim lhe convidar para conferir.

    http://iasmincruz.blogspot.com/2012/01/novidades.html

    Tenha um ótimo fim de semana.

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