Nunca fui Beijada - Final

21 fevereiro 2015


Renato

Enquanto segurava a mão da Dani, imaginava o que eu poderia fazer para desmascarar aquele canalha. Ele ia simular uma cena como fez na morte da Milena, se passando pelo professor preocupado com a aluna temperamental e sem juízo algum. Não podia deixar que isso acontecesse.
Não podia!
Quando ele deu o ultimo sorriso cínico, eu não me contive.
- É mentira!
- Como assim, garoto? - indagou o policial.
- Ele está mentindo! - gritei

Os olhos dele ficaram completamente vermelhos e ele empunhou a arma.
- Seu desgraçado! - O tiro disparou sem que eu pudesse me mover. Mas Daniela tinha sido mais rápida, se jogando na minha frente. Ainda posso sentir o baque de seu corpo contra o meu e o seu sangue respingando na minha camiseta branca.
Eu tentei a todo custo reanimá-la, mas a bala tinha perfurado sua carne e ela perdeu rapidamente muito sangue.
Vendo ela desmaiada com o peito coberto de sangue, Ricardo enlouqueceu e deu cabo da própria vida com um tiro na cabeça. 
As duas ambulâncias chegaram em pouco tempo. Pouco tempo que para mim pareceu uma eternidade. Ele já estava morto, mas Daniela ainda tinha pulso, mesmo fraco.
No hospital ela foi direto para a mesa de cirurgia para retirada da bala. Mas, por ter perdido muito sangue, acabou tendo complicações que a levaram para a UTI.
Sua família foi avisada e chegou minutos depois de nós.
Lá pelas oito horas da manhã o doutor Marcelo, cirurgião, trouxe a notícia: Daniela permanecia na UTI em coma induzido.
Meu mundo desabou naquele momento, mas eu tive que permanecer firme, porque sabia que ela ia querer isso de mim, se estivesse bem.
Alyson e Emília apareceram no final da tarde.
- Como ela está?
- Em coma. A bala já foi removida, mas a perda de sangue agravou a situação.
- Meu Deus, meu Deus! - Emília sussurrava baixinho, como se não acreditasse naquilo tudo.
- Tem alguma coisa que a gente possa fazer por ela? - indagou Alyson, com o rosto vermelho de quem tinha chorado.
- Ela ta precisando de doação de sangue. Os estoques do hospital estão quase vazios e o tipo dela é raro.
- O meu tipo é o mesmo que o dela! - disse Emília, num sobressalto - Quando era pequena tive anemia profunda e ela doou sangue pra mim. É a minha vez de retribuir.
Alyson fez o teste e pôde doar também, já que o seu tipo era compatível.
Foram três dias torturantes na espera de uma melhora. No quarto dia, ela foi transferida pro quarto, já que os riscos haviam baixado, mas permanecia em coma. Eu conversava, ou fingia pelo menos, com ela, sussurrando.
- É tão difícil te ver assim, tão frágil. Mas desde quando eu te conheci você sempre se mostrou uma garota determinada. Acho que ter te conhecido foi uma das melhores coisas da minha vida, sabe? Você é aquela pessoa que tá sempre do meu lado, pro que der e vier. Com quem eu consigo ser mais eu mesmo, dividir meus medos e desejos... Lembra quando a gente tava dançando? Eu sei que você tava morrendo de medo do que tava acontecendo, mas, até agora, eu também tô. A diferença é que meu medo maior agora é de te perder antes que você saiba... que eu preciso de você comigo. Que eu te amo.
Então, eu a beijei.

Daniela
Foi como despertar de um pesadelo para um sonho bom.
Senti um toque macio e quente nos meus lábios e, ainda sonolenta, abri os olhos. Senti um aroma gostoso de café e perfume masculino, misturados com bala de hortelã.
- Ela acordou!
Comecei a ouvir gritos e várias pessoas se movimentando dentro daquele lugar que parecia ser um quarto de hospital.
- Que loucura! - foi o que eu consegui dizer depois de saber tudo o que tinha acontecido e o tempo que eu fiquei em coma.
Minha família, o Alyson, a Emília, o Renato, alguns colegas de sala e até as enfermeiras e o doutor Marcelo estavam emocionados com aquela história que tinha tudo para ter um final muito mais trágico.
Aos poucos o quarto foi esvaziando e percebi que o Renato estava meio ansioso para que isso acontecesse.
- Eu tenho uma pergunta. Por que?
- Porque o quê?
- Por que você se jogou na minha frente? A bala era pra me acertar, não você.
- Hummmm...
- Eu sei que você está grogue, mas não é pra tanto.
- Na verdade, eu tentei te falar quando eu tava desmaiando, mas acho que você não conseguiu ouvir.
- Por acaso você ouviu algo do que eu te disse nesses ultimos dias?
- Olha, eu não tenho muita certeza de nada no momento.
- Ah é?
- Mas de uma coisa eu sei: Eu te amo, Renato. - disse, emocionada.
- Eu te amo, Daniela. Mas da próxima vez, não deixa uma bala atravessar seu peito pra você conseguir falar, ta?
Ele pegou minha nuca com delicadeza e trouxe novamente a maciez daqueles lábios para junto dos meus.
E eu fui finalmente beijada.
Por quem eu amava, e que, por destino ou sorte, também me amava.


Fim

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