Doce Veneno, capítulo II

29 junho 2015


Uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel
Uma mulher, uma beleza que me aconteceu 
Esfregando a pele de ouro marrom do seu corpo contra o meu


Eram quase cinco da manhã quando Maysa chegou em casa. Segurava o par de louboutin na ponta dos dedos, tentando a todo custo abrir a porta sem fazer barulho. Mas não teve jeito, o irmão já estava na porta antes que ela conseguisse pôr os pés para dentro do apartamento ainda escuro.
- Desculpa Caê. Não queria te acordar. - disse em voz baixa
- Tem nada não. Mas ce podia ter me avisado que ia demorar tanto, né? - o rapaz esguio estava de mãos cruzadas, ainda sonolento.
- Eu deixei um recado na geladeira avisando que ia sair.
- E não falou quando voltava.
- Vai querer brigar comigo a essa hora? - Maysa fechou a cara, já se irritando com o irmão
- Não. Boa noite. - Caetano disse e voltou para o quarto.
"Amanhã converso direito com ele", pensou Maysa, sem se dar conta do horário.
Ao entrar no quarto, jogou os sapatos de lado e sentou-se de frente à sua penteadeira. Era o ritual de sempre: tirar a maquiagem, passar creme, depois trocar de roupa. Vestia sua camisola de seda e se deitava na sua imensa cama queen size. A cabeça girava de leve. Tinha exagerado nas doses e, além do mais, não comeu quase nada durante toda a festa.
Seu dia tinha começado péssimo e parecia que ia terminar da mesma forma.
Maldita hora que o namorado tinha pedido um tempo.
Maldita hora que a Nathalie se aproveitou disso tudo.
Maldita hora que, ao invés de ficar em casa, ela resolveu ir pra balada.
- Amiga, você tem que sair da fossa! - disse Ju, a amiga mais animada da turma de quatro amigas.
- Ju, você sabe como eu sou... depois eu explodo, faço o que não deveria e me arrependo.
- Mas do que você poderia se arrepender numa simples balada de sábado a noite? - "Bem", Maysa pensou, "acho que nada".
- Tá bom. Cê passa aqui que horas?
Maysa se preparou para sair tentando ignorar ao máximo o fato de que o namorado tinha saído na noite anterior e ficado muito próximo da menina que ela mais odiava. "Enfim", pensou, "se ele pode se divertir, eu também posso. Reformulação: não só posso como eu DEVO!"
Vestiu um vestido que modelava a sua silhueta e que deixava as suas curvas ainda mais visíveis. Era dourado, com as costas nua, mostrando o leve bronzeado que tinha conseguido da ultima viagem que fizera à Búzios. Claro que ela mantinha uma alimentação super regrada, mas tinha seus sobressaltos quanto aos doces nos seus dias ruins. Observação: não só doces, como também ao álcool.
A maquiagem leve contrastava com os olhos esverdeados. Acrescentou um rímel potente para ressaltar os cílios compridos e finalizou com um batom vermelho escarlate.
Perfume, salto alto, carteira de motorista, bolsa, batom, brinco.
Tudo estava em seu devido lugar.
Escreveu um bilhete e pregou na porta da geladeira para o irmão, avisando que ia sair.
Enquanto esperava a Ju, ligou mais uma vez o celular que estava com a foto dela e Eduardo: abraçados, eles riam um do outro. Uma das fotos mais bonitas e mais espontâneas que tinha deles.
Uma lágrima que se formar em seu rosto, mas Maysa não permitiu.
Fechou as janelas e pegou um guarda-chuva para o caso de que os céus desmoronassem mais uma vez. O dela era portátil e cabia dentro da bolsa, então, estava ótimo.
Ouviu o interfone tocando, com seu Márcio avisando que a amiga já estava na portaria lhe aguardando. Seu Márcio era o porteiro mais antigo dali e era um querido, pois conhecia a família e tentava ajudar no que podia para que os dois irmãos ficassem bem.
- Isa, e essa roupa?
- Gostou, Seu Márcio? - perguntou Maysa, dando uma voltinha.
- Você não tem jeito mesmo. Se cuida, menina!
- Pode deixar! - retribuiu com uma piscada de olho e saiu correndo.
- Demorei? - Maysa perguntou entrando no carro da amiga.
- Não. E aí, tá pronta pra badalar? - Ju sorria com as mãos no volante.
Maysa respondeu com um sorriso, tentando disfarçar a tristeza. - A gente vai buscar as meninas?
- Yep! A Rebeca tá na casa da Nanda. - Julia era aquele tipo de pessoa iluminada. Tinha olhos azuis e era naturalmente loira, com um sorriso que conquistava as pessoas onde quer que ela fosse. Maysa conheceu ela no ensino médio e nunca mais quis desgrudar do seu pequeno raio de sol, my little sunshine, como chamava a amiga.
As nove horas as quatro estavam sentadas ao redor de uma pequena mesa redonda, cada uma com sua dose de bebida.
- Meninas, eu tenho um bafão pra contar! - falou Rebeca se aproximando das amigas - Lembram do Felipe? Aquele com quem eu fiquei no início do ano?
- O moreno alto, bonito e sensual? - Maysa perguntou, já curiosa
- Esse mesmo, Isa! Se apaixonou por uma menina daqui e tava trocando mensagens com ela. Ele não me falou quem era, só que estava em outra como uma pessoa muito especial. Eu tava de boa, afinal, não estávamos namorando nem nada. E esse lance de namoro a distância é muito complicado. Enfim. Ele tava tão afim dela que chegou a chamá-la pra viajar pra Disney com ele! Cês acreditam? E a história não para por aí - Rebeca estava mais agitada que o normal. Bebia um gole de caipirosca entre uma frase e outra - A garota topou, fez ele comprar as passagens e tudo mais pra depois dar um bolo nele, dizendo que, achava que as coisas estavam tomando um rumo que ela não imaginava e que ela não queria decepcioná-lo e blá blá blá....
Maysa não conseguiu manter a atenção a partir daí, porque viu de longe Eduardo segurando dois copos.
- Meninas, ces me dão licença. - disse, se levantando.
- Que foi, Isa? - perguntou Nanda.
- Eu acho que vi o Edu.
- Esquece disso, mulher! Ele pediu um tempo. Ele quer se divertir um pouco e você deveria fazer o mesmo! - retrucou Rebeca.
- Eu preciso ver com que ele está!
- E como você sabe que ele tá com alguém? - questionou Ju, com a sobrancelha erguida.
- Ele tava carregando dois copos. DOIS COPOS. Vocês sabem o que isso significa?
Maysa não deu tempo para que as amigas respondessem e saiu como um furacão na direção por onde vira o namorado passar.
E o pior de tudo era que sua intuição estava certa: as bebidas que ele segurava eram realmente para ele e mais alguém, e esse alguém era a Nathalie.
Parou no meio do caminho, estática, sem reação.
Foi então que sentiu um toque no seu ombro.
- Com licença, você gostaria de dançar comigo? - Um rapaz alto sorria para Maysa estendendo a mão para o caso dela aceitar o pedido.
- Desculpa, mas eu não tô no clima.
- Eu entendo. Coração partido?
- Que?
- Sabe, eu também tenho um assim. Mas descobri que dançar é a melhor forma de aliviar.
Maysa riu. Como ele adivinhou?
- Meu nome é André, e o seu é?
- Maysa, mas pode me chamar de Isa.
- Isa, você me daria a honra dessa dança?
- André, né? Eu nem sei dançar!
- Eu te ensino, vamos!
Ele puxou Maysa para perto de si e fez um sinal para que o DJ tocasse. A música era de Rick Martin, Livin' La Vida Loca
- Vou te ensinar. Presta atenção.
E a medida que Maysa aprendia a dançar, prestando atenção naquela batida forte e vibrante, entrou no ritmo.
- Viu como é bom? - André era alto, mas tinha um corpo muito bonito: a pele escura contrastava com os dentes brancos e os olhos também esverdeados. A camisa branca modelava o abdômen bem definido e os braços fortes do mulato.
Maysa só não percebeu que o namorado observava tudo.
E por mais que se mostrasse autoconfiante e por ter sido ele quem pedira um tempo, ele ficou com ciúmes.
Sentimento maldito esse, não?
Foi num rompante que se levantou e levou a loira para a pista de dança. Nathalie que estava se insinuando para Eduardo desde o início da festa adorou ser puxada e ficou ainda mais certa de que seus truques estavam funcionando.
Quando eles ficaram de frente à Maysa, que fazia passos de dança acompanhando André, Nathalie fez questão de puxar Eduardo pela cintura e forçar um beijo.
Foi a gota d'água.
No mesmo instante que a música terminou, Maysa viu a cena e se transformou por completo.
- SUA VACA DESGRAÇADA!
Maysa partiu pra cima de Nathalie e conseguiu dar um tapa forte na cara da loira antes de ser separada da briga por André.
- SEU TEMPO ESGOTOU, EDUARDO! AGORA QUEM NÃO QUER SOU EU! SEU CANALHA!
Eduardo ficou estático com as palavras de Maysa e foi puxado novamente pela loira para fora da festa.
- Você é louca, Nathalie?
- O que? Eu sou espancada e ainda sou chamada de louca?
- Porque você fez aquilo?
- Eu achei que você queria, ué.
- Realmente, a Isa tava certa sobre você.
- Me poupe, Eduardo. Você sempre soube que eu tava dando em cima de você e você quis! Não banque o idiota.
- Mas eu não...
- Quer saber?! Vai se foder! Tem caras mais interessantes e mais interessados em mim que você mesmo, seu bocó! - a loira pegou um táxi e deixou o rapaz estático na porta da festa.
Enquanto isso, na parte de dentro, Maysa começou a entornar vários drinks seguidos.

- Meninas, esse aqui é o André. Meu super-herói particular.
Os olhinhos de Julia brilharam ao ver o rapaz. - Oi, eu sou a Ju!
- E eu sou a Rebeca e essa aqui é a Nanda.
- Prazer, meninas! Isa, você tá bem mesmo?
- Tô sim. Já passou! Agora me faz um favor? Leva uma dessas três pra dançar!
- Com todo prazer! - os olhos de André se encontraram com os de Ju - Você me daria essa honra?
- Claro! - e saíram os dois.
Pouco tempo depois, Rebeca se arranjou com um cara e partiu pra pista de dança, deixando Maysa e Fernanda sozinhas.
- Você quer conversar agora? - perguntou Fernanda, afagando de leve o ombro direito de Maysa.
- Não, Nanda. Hoje eu quero beber.


                                                                                                 Me falou que o mal é bom e o bem cruel

Continua...

2 comentários:

  1. Eu entro aqui todos os dias com a esperança de ver mais um capítulo de sua história (acompanhei todas que vc já escreveu aqui) mas infelizmente não tem. É uma pena. Se você lançasse um livro, eu compraria :) escreve mais pra gente, please. Você é uma das pouquíssimas pessoas que consegue me prender em um texto.

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