Doce Veneno, capítulo 3

30 julho 2015



Ainda é cedo amor.
Mal começaste a conhecer a vida.
Já anuncias a hora da partida.
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar.



A cabeça de Maysa ainda girava quando acordou as três daquela tarde nublada de domingo. A ressaca não lhe perdoava, como sempre, mas existia um combo extra: o fato de ter sido humilhada publicamente com aquela traição. Mas não ia ficar por baixo por muito tempo.

Tomou um banho quente demorado, vestiu-se e foi tomar um açaí na lanchonete que ficava próxima de casa.

Enquanto misturava o açaí com o creme de cupuaçu e leite condensado com uma mão, com a outra começou a deletar as fotos com Eduardo - seu atual ex-namorado.

Olhava de relance para os rapazes sentados e pensava que poderia conseguir qualquer um com um simples piscar de olhos. Loiros, morenos, brancos, negros, altos, baixos, desacompanhados ou não. Mas não estava com o menor saco. Ao contrário do que gostava de exibir, ela não se sentia minimamente confiante ou autossuficiente para dar sequer um passo.

Colocou os óculos escuros pra disfarçar as olheiras, pagou a conta e foi embora.

Andou por muito tempo a esmo, sem se dar conta que estava escurecendo. Ficou surpresa quando olhou o relógio e começou a caminhar de volta pra casa, apressando o passo, quando um estranho se aproximou.

- O que uma gatinha tá fazendo sozinha na rua essa hora?

Um homem com aspecto de sujo com cheiro forte de álcool lhe puxou pelo braço e começou a agarrá-la.

- Socorro! - Maysa berrou, tentando escapar dos braços daquela criatura medonha. - Por favor, alguém me ajuda!

- Solta ela.

O estranho virou para ver o rapaz franzino e alto que surgiu do nada - Olha aqui, playboy, ela tá comigo! - respondeu o homem, apertando Maysa contra seu corpo sujo.

- É melhor você fazer o que eu tô mandando, cara. Solta ela. AGORA!

- Ou o que?

O rapaz olhou pra trás e deu um forte assobio.

De repente apareceram dois caras altos e fortes.

- Esse aqui é o Gustavo, meu irmão, e o Joaquim, meu primo. Os dois são policiais e estão a paisana. Mas posso pedir que eles vistam o uniforme agora mesmo pra resolver esse problema que você tá causando à moça aí.

O homem soltou Maysa na mesma hora e saiu correndo.

Ela pulou nos braços do rapaz, tremendo de pavor.

- Agora tá tudo bem. Fica calma, tá?

Os olhos verdes de Maysa deixaram escorrer lágrimas quentes que molharam a camisa do rapaz.

Ele pediu para que o irmão buscasse uma garrafa de água na farmácia que ficava numa esquina próxima e ofereceu à Maysa, que aos poucos foi se acalmando.

- Obrigada. Obrigada mesmo!

- Não foi nada. Seu nome é?

- Maysa, mas pode me chamar de Isa.

- Isa, eu sou o Flávio, muito prazer.

- Isa? Isa! - era Caetano, que se assustou ao ver a irmã sentada na calçada.

- Calma, Caê. Tá tudo bem, agora. - respondeu Maysa, abraçando o irmão. - Esse aqui é o Flávio. Ele é o meu herói.

- Eu venho na farmácia e encontro minha irmã sentada na calçada chorando com um estranho, como você acha que eu poderia ficar, Maysa?!

- Calma, Caetano. Em casa eu te explico tudo.

- De qualquer forma, obrigado... Flávio, né?

- Isso! Fica tranquilo, cara.

- E você, mocinha, pra casa agora!

- Tá bom, papaizinho. Mas tu não ia na farmácia? - retrucou Maysa.

- Depois. Tchau!

- Tchau, Flávio! E mais uma vez, obrigada! - disse Maysa, correndo para o lado do irmão.


- Eu não acredito nisso, Maysa! Quantas vezes eu já te falei pra não andar sozinha por aí de noite? - Caetano andava de um lado pro outro do apartamento.

- Poxa, irmão, eu já disse que me distraí. E, olha. Já passou. Vem cá, me dá um abraço! - ela puxou o irmão para o sofá e o abraçou com força.

- Eu não saberia o que fazer se algo te acontecesse...

- Mas não aconteceu nada, Caê. E o Flávio apareceu bem na hora.

- Sorte a sua, né, irmã, desse rapaz ter te encontrado.

- Mas ele não faz o meu tipo.

- Porque? - questionou o irmão.

- Acho que ele é gay. Vou tomar banho, Caê. Tu faz a janta?

- Faço sim.

Maysa saiu saltitando até o quarto sem perceber que o irmão estava ruborizado com sua resposta.

Ao ligar o notebook teve um pequeno sobressalto e seus olhos se encheram de lágrimas novamente. Na foto, ela e Eduardo estavam sorrindo de mãos dadas. Maysa suspirou profundamente e mudou o plano de fundo de sua tela.

Ao abrir o facebook, viu uma mensagem dele. Pedia desculpas, que não queria que as coisas tivessem sido daquela forma, mas que eles tinham que conversar. Implorava que Maysa o ouvisse, porque nem tudo estava acabado.

"Você está enganado, Eduardo" respondeu para a tela do computador "Tudo acabou." e desfez o status de relacionamento, de "namorando" para "solteira", enquanto uma lágrima escorria pela boca.




Ouça-me bem amor.

Preste atenção, o mundo é um moinho.

Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos.
Vai reduzir as ilusões a pó...



Continua...

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