Projeto Vamos Falar Sério - Anorexia

05 outubro 2015




Fiquei bastante surpresa quando, ao pedir ajuda a uma amiga da faculdade, achei uma personagem para o Projeto. Além do que, uma menina tão bonita, religiosa e simpática como a Paula não aparenta nem um pouco ter sofrido com um problema tão sério quanto a anorexia.


                                                                           Paula Dornelas é estudante de jornalismo da UFMG 

Ela, assim como muitas outras meninas, sempre teve problema com auto-estima baixa. “Eu sempre fui muito complexada com a minha aparência e sempre me comparei muito com os outros. Sou extremamente perfeccionista com tudo que eu faço, e eu me cobro muito. Então, quando eu tinha quatorze anos eu comecei a me achar muito gorda, a me enxergar muito gorda e decidi que eu queria emagrecer.”, explica. Segundo Paula, ela se sentia muito incomodada principalmente com sua barriga.

“E aí eu tava na casa da minha avó, nas férias de julho, e decidi parar de comer. Eu já sabia que existia a anorexia, inclusive eu já tinha pesquisado em blogs de meninas que queriam ser anoréxicas - os blogs pró-ana e pró-mia que são as siglas de anorexia e bulimia -, eu decidi parar de comer tudo, e parei.”


O jeito persistente de Paula fez com que ela conseguisse abster-se de todas as gostosuras da casa de sua avó, mas não foi só isso: ela parou de se alimentar, comendo às vezes apenas salada e nada mais. Quem percebeu que algo estava errado foi sua mãe, que passou a levá-la no médico para tentar entender o que estava acontecendo.

“Com o passar do tempo eu fui emagrecendo. Logo quando eu voltei pra BH, eu tinha perdido dois quilos e eu ficava muito feliz com isso. Teve uma época que eu comecei a perder um quilo por semana, porque eu realmente não comia nada. Eu perdi dezesseis quilos, fiquei pesando 34 kg, isso em cinco meses mais ou menos.”


Paula Dornelas tem 1,62m de altura, pouco mais alta que eu. E no momento que ela disse isso, eu fiquei tentando imaginar o quanto cadavérica ela deve ter ficado. E pior que isso, o quanto ela não conseguia enxergar o que eu sempre vi nela: uma pessoa iluminada, de bom coração e além de tudo de uma beleza tamanha.

Outro problema era que ela não podia ser internada, porque tinha risco de pegar uma infecção. Além disso, foi naquela época que a gripe suína deflagrou no Brasil. A imunidade de Paula ficou tão baixa que sua mãe a proibia de andar de ônibus, porque uma simples gripe podia matá-la.

“Chegou uma fase em que eu me reconhecia magra, mas eu não conseguia melhorar, porque eu não conseguia comer! Se eu comia um biscoito inteiro eu me sentia muito mal, parecia que eu tinha cometido um crime. A sensação da culpa era pior do que eu tentar comer pra melhorar minha saúde.”

“Sem contar que isso atrapalha as relações familiares. Meu pai não mora comigo, e teve uma vez que ele foi me buscar na escola e não me reconheceu.”, comentou. Ela disse que os olhos dele se encheram de lágrimas ao perceber como a filha estava.

“Na escola as pessoas percebiam, mas ninguém entendia, sabe?! Eu acho que isso é um problema das pessoas que têm anorexia. Todo mundo acha que isso é futilidade, que quem faz isso ta querendo chamar atenção, e não é, isso é totalmente psicológico!”


Outro problema foi o aumento da irritabilidade, característica própria das pessoas com distúrbios alimentares como a anorexia. Isso porque a pessoa não come e, com isso, as pessoas vão fazer de tudo para que ela volte a se alimentar.

Paula explica que três fatores foram essenciais para sua melhora: a terapia, a ajuda da família e dos amigos e a fé. “Com a terapia eu fui passando a me aceitar. Porque quando eu comecei a reconhecer que eu tava magra, eu já não me aceitava magra. Eu me achava um lixo e me sentia muito culpada por estar fazendo as pessoas sofrerem.”, explica. Segundo ela, a mãe ajudou a descobrir o problema e a fazer com que ela voltasse a se alimentar através de suplementos de alto custo. Esses suplementos ajudaram a jovem a ganhar peso e voltar a ser saudável.

Mas foi na igreja que ela conseguiu perceber o seu próprio valor. “Eu sempre fui católica, mas não praticava. E eu comecei a fazer crisma, por insistência das minhas amigas. Um episódio decisivo foi quando a gente tava num retiro, e tava tendo uma pregação sobre a imagem e semelhança de Deus. E falaram que Ele nos ama independente se a gente é gordo ou magro, feio ou bonito. E pra Ele não importa, que Ele vai estar sempre do nosso lado. E foi nesse momento que eu pensei ‘nossa, eu preciso fazer alguma coisa! Eu sei que ta sendo difícil, mas eu vou tentar!’. Isso foi antes do almoço, e no almoço eu já consegui voltar a comer um pouco mais. E no final desse ano eu já tava curada.”

A anorexia é uma doença com taxa de mortalidade de 15 a 20%. Essa taxa afeta principalmente meninas jovens, assim como a Paula, que, além de uma auto-estima baixa, podem ter problemas de relacionamento familiar, ansiedade e depressão. O primeiro passo, nos casos de transtorno alimentar, de uma forma geral, é convencer quem sofre desse mal a buscar tratamento. Por isso mesmo a família, os amigos e até mesmo a fé são fundamentais, já que, pelo menos, 30 a 40% das pessoas tratadas melhoram muito ou até alcançam a cura. Outra coisa que é preciso lembrar é que um transtorno alimentar, tais como a anorexia e a bulimia, é uma doença assim como qualquer outra e precisa de tratamento!



“Eu acho que tudo na vida tem que ter equilíbrio. Por isso é preciso colocar na balança: será que o que eu to fazendo comigo é bom? Será que se eu emagrecer com saúde não é melhor do que parar de comer? E pra quem já se reconhece doente e quer mudar, é saber que isso vai passar. É só você se deixar ajudar. E se ame em primeiro lugar. É um exercício diário de se olhar no espelho e dizer: cê ta linda hoje, vai assim mesmo! Tipo assim, você pode ser melhor, tem muita gente que pode te ajudar e tem coisas muito mais importantes do que o físico. A sua essência tem que ser mais importante que isso.”

Eu e a Paula sorrindo pra vida

Um comentário:

  1. Muito legal a maneira como a matéria foi condusida para tratar do assunto! Parabéns Bela!

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