Projeto Vamos Falar Sério - Racismo e Gordofobia

07 março 2016


De umas das coisas que eu posso me orgulhar em ter nascido no dia 20 de novembro, é que nessa data é comemorado o dia da Consciência Negra. Mas porque eu tô falando disso? Porque esse é um dos temas do Vamos Falar Sério? de hoje.

Conheçam a menina Maíra!
Dona do Blogueira Preta, Maíra dos Anjos tem 24 anos, é ariana, formada em designer gráfico pela FUMEC de Belo Horizonte. Atualmente, ela trabalha como programadora assistente da Assessoria de Comunicação da Faculdade de Medicina da UFMG. Foi lá que eu, como estagiária, conheci essa figura. Dona de um estilo incomparável, Maíra é aquele tipo de pessoa que impacta onde chega. Negra, gorda e muito, mas muito feliz. Ah! Gorda sim, viu? Afinal, como ela mesma me explicou "gordo(a) é um adjetivo e não é pejorativo". A primeira coisa que eu quis saber de Maíra foi como era sua relação com seu corpo, já que ela não se enquadra em nenhum padrão de magreza.

"A minha relação com o meu corpo foi construída de forma bem natural, já que eu tive uma criação bastante afirmativa. Eu não tive uma mãe dizendo pra mim que eu tinha que emagrecer porque senão eu não conseguiria um namorado ou mesmo ser uma mulher bem sucedida. E isso já é muito importante pra qualquer traço de baixa auto-estima que eu possa ter. Por essa minha criação ficou mais fácil lidar com uma sociedade extremamente gordofóbica, machista e, principalmente, racista. Eu fui uma criança muito ativa, fazia natação e chegava a treinar quase oito horas por dia. Eu nunca posso dizer que tive uma infância não saudável. É claro, se hoje eu sou gorda é o resultado de uma tríplice de alimentação, exercício físico e equilíbrio emocional. Mas é engraçado como as pessoas olham para alguém gordo e tiram uma conclusão precipitada daquilo, algo que não acontece com uma pessoa magra".

E o pior de tudo é que isso realmente acontece. A gente trata a pessoa gorda como se ela fosse daquele jeito por desleixo ou preguiça ou gula, algo que, na maioria das vezes, não é verdade. E se for, qual o problema? Porque o julgamento que temos com a pessoa gorda é sempre tão negativo? É fato: nem todo mundo tem o corpo magro, mais isso não quer dizer que ele seja menos saudável!
Maíra fala que durante a adolescência isso passou a incomodar. Ela não entendia porque ao se olhar no espelho ela se via bonita e não alguém menos capaz ou mais feia. "Parecia que a sociedade fazia questão de sempre deixar claro pra mim: 'porque você é tão feliz sendo do jeito que você é?'", diz.

"Então dentro de casa eu me sentia maravilhosa e chegava na rua, principalmente na escola, com a descoberta do corpo e da formação da sexualidade, e o quadro se invertia. E foi com a internet que eu descobri um grande canal, onde eu pude conhecer homens e mulheres maravilhosos. E é aí que entra a questão da representatividade: a internet surgiu como um verdadeiro veículo de representatividade."

É a musa do verão!

A internet surge como um espaço de representatividade por trazer grupos marginalizados pelos meios de comunicação tradicionais (TV, jornais, revistas, etc.). Há um rompimento com diversas das barreiras que existem quanto à representação dos interesses de grupos sociais, como negros e gordos, à exemplo de Maíra. "E o mesmo vale pro racismo: Eu sempre me vi negra, mas quando eu me tornei mulher negra, um novo mundo surgiu pra mim, e foi graças à internet", explica. Segundo ela, esse novo meio de comunicação possibilita um aprendizado horizontal, livre de imposições e hierarquias, abrindo um universo de conhecimentos e consciências antes escondidos. Quanto ao racismo, Maíra conta que nunca conseguia assumir a dor do preconceito, escondendo esse sentimento até da própria mãe. E foi com essa descoberta da internet e da busca de informações e referências sobre o tema, que ela passou a ter uma visão crítica do assunto.

"Quando você estuda o racismo, você passa a ter uma visão crítica das coisas que a sociedade afirma ser verdade, você passa a enxergar diversas coisas e questionar. 'Porque eu não gostava do meu cabelo do jeito que ele é?'. Eu passei a questionar porque era quase um hábito alisar meu cabelo. Hoje eu não consigo fazer nada sem pensar se eu tô fazendo isso porque tem a ver somente com auto-imagem ou se é resultado de uma sociedade racista que me obriga a fazer isso. O que foi essencial pra mim ao aprender a lidar com o preconceito foi aprender a questionar toda e qualquer atitude que eu tinha".

Quando perguntei a razão do racismo ainda existir ela me explicou que é uma tríplice de fatores. O primeiro e mais marcante é que o racismo é institucionalizado e aceito pelo Estado. "A polícia é racista, as instituições públicas são racistas. São números muito fáceis de enxergar, números da segurança e da saúde pública", comenta. De acordo com dados do Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade Social 2014, jovens negros são as principais vítimas da violência e têm 2,5 vezes mais chances de serem assassinados no Brasil do que jovens brancos. Além disso existem doenças predominantes nas pessoas de cor negra, como a doença falciforme, que não recebem o devido tratamento, exatamente por conta do preconceito. Junto a isso está a falta de consciência do próprio negro em conhecer sua história. O racismo é uma forma de dominação porque segrega pessoas pela sua etnia - como se isso fosse capaz de reduzir alguém à uma condição inferior. E só o conhecimento sobre a própria história é que fornece ao negro condições para ter pensamento crítico e lutar contra o racismo. Segundo Maíra, "a ignorância da população negra também é causa do racismo existir". Isso, no entanto, é também culpa do Estado na medida em que ele não promove tal consciência nos estabelecimentos de ensino. Por último, mas não menos importante, está a falta de representatividade negra nas mídias de massa, sendo que ela é tão importante quanto a própria consciência negra. 

E quando me vê abre os braços, me dê um sorriso: sou eu negro lindo!

"Eu só passei a questionar não ter, digamos, uma socialite negra depois que eu passei a prestar atenção em todas as revistas e não me enxergar nelas. A representatividade, pra mim, foi um ponto de partida pra tudo isso. Não existe a indústria da moda que não vê a mulher negra como uma mulher bonita e a polícia que acha que a mulher negra é descartável separadas! As duas situações são reflexos de uma mesma coisa! Então, eu acho a representatividade muito importante pra toda a sociedade negra, porque se você não se vê, você não questiona. Mas se você se vê, você sente que também tem poder."

Maíra finaliza falando da importância da comunidade branca ter empatia tanto com a comunidade negra quanto com outros grupos que sofrem com o preconceito, como a comunidade transsexual e a homoafetiva. Tentar compreender o que os outros passam é o mínimo que se pode fazer para promover a igualdade no âmbito social. Afinal de conta, somos todos humanos.
Quer saber um pouco mais sobre representatividade negra? A Maíra indicou o Clube de Blogueiras Negras de BH e o próprio site.
http://blogueirapreta.com.br/
https://www.facebook.com/cbnegrasbeaga

E aí, o que você pensa sobre isso? Conta pra gente!
Um beijo!

Isabela Santiago

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