Doce Veneno, Capítulo 11

16 junho 2016


Eu amo esse lugar, mas ele é assombrado sem você
Meu cansado coração está batendo tão devagar
Nossos corações cantam menos do que nós queríamos
Nossos corações cantam porque... 
Nós não sabemos... Nós não sabemos

Os dias que seguiram foram mais difíceis pela barreira que Maysa impôs ao irmão. Caetano fazia o possível para conversar com ela, mas Maysa, como boa escorpiana que era, reagiu da pior forma. Por um lado, não sabia assimilar a descoberta da homossexualidade do irmão, por outro se sentia traída por ter sido a ultima a saber disso.
- Ju, como foi pra você quando cê descobriu que o Miguel era gay? - Maysa perguntou, tentando disfarçar o constrangimento lixando as unhas com certo desdém.
- Ah, Isa. Eu sempre soube.
- Como assim?
- Ele sempre teve um comportamento diferente, sabe?! Não que isso fosse ruim... Mas eu reparava que ele era muito sensível, muito apegado à mim, indo nos mesmos lugares que eu. Até aí, nada estranho. Só que além disso, ele saía mais com meninas que com meninas, gostava de moda e coisas que os meninos geralmente não curtem. Quando foi chegando na adolescência, eu comecei a perceber essas diferenças se acentuando e, mais que isso, eu reparei na forma como ele olhava os rapazes. Ele teve certa dificuldade de aceitação no início, mas isso foi resolvido com diálogo dentro de casa mesmo, sabe?! Até porque nossa mãe sempre foi muito de ter conversas abertas com a gente. Sexo, por exemplo, nunca foi tabu. Então eu acho que foi mais ou menos tranquilo, porque, de uma forma ou de outra, a gente já sabia.
Maysa ficou extremamente pensativa ao ouvir tudo aquilo. Claro, as realidades eram bem diferentes. A Marina, mãe da Júlia, era mãe solteira de dois jovens e sempre foi uma mulher de mente aberta. A relação entre mãe e filhos era de amizade verdadeira. Coisa que Maysa nunca teve.
Na verdade, o irmão foi meio que levado a tomar esse lugar quando a mãe faleceu, logo cedo. O pai dos dois sempre estava distante, pelos negócios em outras cidades e países, e com o passar dos anos cada um foi aprendendo a se virar. A condição financeira facilitou muita coisa para ambos. Mas não foi capaz de preencher o vazio ocupado pela mãe.
- Maysa, eu acho que você devia, pelo menos, tentar ouvir o Caetano. Eu não sei o que tá passando na sua cabeça, mas eu te entendo perfeitamente. Só não permita que essa confusão dentro de você te afaste dele. Porque, independente de qualquer coisa, ele é seu irmão, sangue do seu sangue, e mais que isso, te ama como ninguém.
O final de semana chegou e domingo seria o primeiro Dia dos Namorados que Maysa passaria com Cadu. O casal foi passar o sábado e o domingo num hotel fazendo fora da cidade. O local era lindo, com um lago na frente do hotel, um espaço para cavalgar e muitas árvores. Apesar do frio que fazia, os dois passaram a tarde cavalgando e desbravando um pouco daquele lugar incrível.
A noite, Cadu convidou Maysa para jantar. Ao final, já chegando no quarto, ela olhou no relógio e fez uma careta.
- O que foi? - perguntou Cadu
- Já é domingo.
- E o que tem?
- Dia dos Namorados.
- Qual o problema?
- Bem... Eu não comprei nenhum presente pra você.
- Ah, amor... Deixa de besteira.
- Na verdade, eu comprei pra mim.
- Não entendi.
Então Maysa puxou Cadu pelo cinto e jogou-o sobre a imensa cama branca. Fechou a porta e rapidamente se colocou na frente dele de novo.
- Eu comprei essa lingerie aqui - ela falava enquanto tirava o sobretudo e o vestido - Mas não tenho certeza se seria um presente à sua altura, sabe?! O que você acha?
- Uau...Acho que, no momento, eu não tenho palavras para descrever o quanto eu gostei desse presente. Mas posso tentar demonstrar minha gratidão de outra forma. Vem cá.

...

No dia seguinte, Maysa acordou um pouco mais cedo e pediu que entregassem o café no quarto. Enquanto arrumava a mesa, ligou a TV para ouvir o noticiário.

Ataque em boate gay deixa cinquenta mortos em Orlando nos Estados Unidos. É o pior ataque a tiros da história norte americana. O pai do suspeito diz que o crime provavelmente ocorreu por motivações homofóbicas.

- Meu Deus!
- O que foi amor?
Os olhos de Maysa se encheram de lágrimas que não podiam ser contidas. Ela pensou no sofrimento daquelas tantas pessoas dizimadas. Ela sentiu pela perda das famílias dos mortos. Mas naquele momento ela sentiu a dor pelo irmão, que era homossexual. Como alguém poderia ser tão cruel a ponto de tirar a vida simplesmente por não aceitar um dado comportamento? Com que direito alguém poderia violentar os outros de uma maneira tão estúpida e mesquinha? E se seu irmão estivesse entre eles?
- Podia ser o Caetano.
- Mas não é. Fica calma, tá?
- Cadu, eu preciso ir.
- Tudo bem. A gente toma café e vai. Pode ser?
Ela acenou afirmativamente com a cabeça.
Depois do café, eles pegaram a estrada e Cadu deixou Maysa em casa.
- Caetano? - Maysa berrou ao entrar em casa.
- Tô aqui, Isa.
Maysa correu para a sala e se jogou nos braços do irmão, o abraçando com toda força.
- Eu te amo, meu irmão. Me perdoe por não te aceitar como você é. Eu vou mudar, a partir de hoje. Me perdoe.
Os dois choraram abraçados por longos minutos.
Mas era um choro de reconciliação.
Um choro de amor.
Para iluminar a noite
Para nos ajudar a crescer
Para nos ajudar a crescer
Não é dito
Eu sempre sei

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